Por que a obesidade feminina após os 40 exige mais do que medicação?

04/03 – Dia Mundial da Obesidade | Por que a obesidade feminina após os 40 exige mais do que medicação?

Especialista explica que é resultado de fatores biológicos e emocionais e exige uma abordagem integrada

O Brasil acompanha uma escalada silenciosa: o avanço da obesidade em diferentes faixas etárias, especialmente entre mulheres acima dos 40 anos. Ao mesmo tempo, cresce a procura por medicamentos injetáveis para emagrecimento, impulsionando discussões sobre soluções rápidas para um problema que é muito mais complexo do que aparenta.

E no Dia Mundial da Obesidade, celebrado em 4 de março, vale um alerta para o reconhecimento da obesidade como uma doença crônica e multifatorial, distante da ideia ultrapassada de falta de disciplina ou descuido pessoal.

Para Juliana Romantini, treinadora corpo & mente e especialista em mindfulness e em Medicina do Estilo de Vida pela Harvard University, compreender a obesidade exige olhar para o cérebro e para o impacto acumulado do estresse ao longo da vida. “A obesidade não é preguiça, nem fraqueza. Muitas vezes, é resultado de um sistema nervoso desregulado. Quando o corpo vive em estado constante de alerta, ele ativa mecanismos de proteção e armazenamento de energia”, explica.

O estresse crônico é um dos principais protagonistas desse cenário. A liberação contínua de cortisol favorece o acúmulo de gordura visceral, especialmente na região abdominal, além de interferir na sensibilidade à insulina e no equilíbrio metabólico.

Após os 40 anos, esse processo tende a se intensificar. “As mulheres atravessam transições hormonais importantes. Soma-se a isso sobrecarga mental, múltiplas responsabilidades e, muitas vezes, a priorização constante das necessidades dos outros. O corpo responde a esse contexto”, explica Romantini.

Dormir mal também engorda – O sono insuficiente também exerce papel decisivo. Alterações hormonais provocadas por noites mal dormidas aumentam o apetite e reduzem a capacidade de perceber saciedade, criando um ciclo difícil de romper.

Outro ponto central é a atividade física, frequentemente tratada como solução isolada. Segundo a especialista, o problema não está apenas na falta de exercício, mas na forma como ele é inserido na rotina.

“Um sistema nervoso em exaustão não responde bem a estímulos extremos. Quando a atividade física é usada apenas como compensação ou punição, ela pode aumentar ainda mais o estresse fisiológico. O movimento precisa ser estratégico, progressivo e regulador, adaptado à fase hormonal e ao nível de energia dessa mulher”, explica. Ela reforça que exercícios adequados ajudam a modular o cortisol, melhorar a sensibilidade metabólica e fortalecer conexões neurais associadas ao autocontrole e à tomada de decisão, mas devem fazer parte de uma abordagem integrada.

A compulsão alimentar também está ligada à desregulação neural. “Sob pressão constante, o cérebro busca recompensas rápidas. Alimentos ultraprocessados ativam circuitos de prazer imediato, reforçando padrões automáticos que não têm relação com fome real”, acrescenta.

Diante desse cenário, Romantini defende uma mudança de estratégia com foco na neuroplasticidade, capacidade do cérebro de se reorganizar, que pode ajudar a criar novos padrões de resposta ao estresse, ao movimento e à alimentação.

“O cérebro aprende. Quando regulamos o sistema nervoso, melhoramos o sono e inserimos atividade física de forma inteligente, abrimos espaço para uma transformação sustentável, não baseada em culpa. Entender os mecanismos biológicos e emocionais envolvidos é um passo essencial para construir soluções mais eficazes e humanizadas para a obesidade feminina após os 40 anos”, finaliza Romantini.

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