Fogos e buzinas em dias de jogo: especialistas da Unifran alertam sobre os perigos dos ruídos esportivos para cães, gatos, animais de rua e aves
Estudos comprovam que o estresse acústico provoca pânico e fugas repentinas. Especialistas ensinam como proteger pets e a fauna urbana durante as partidas
O grito de gol que ecoa nas janelas, as buzinas nas avenidas e os fogos de artifício que estouram entre os prédios representam a alegria da torcida, mas, para os animais, são sinônimo de uma ameaça invisível e aterrorizante. Em períodos de grandes decisões de campeonatos esportivos, o impacto do barulho nas cidades vai muito além do cãozinho que treme no colo do tutor. Ele afeta cães e gatos domiciliados, animais de rua, colônias de felinos, abrigos e até mesmo as aves urbanas que compartilham o espaço público.
Para a Profa. Dra. Marcela Aldrovani Rodrigues, coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Ciência Animal da Universidade de Franca (Unifran), o impacto do estresse acústico provocado pelo futebol precisa ser compreendido como uma questão de convivência urbana.
“Quando um animal se assusta com fogos, buzinas ou estampidos, ele reage a um estímulo intenso, inesperado e sem possibilidade de controle. No ambiente urbano, essa reação de pânico pode se transformar rapidamente em fugas desesperadas, quedas, atropelamentos ou desaparecimentos. A nossa preocupação não pode ficar restrita apenas aos animais que vivem protegidos dentro das casas”, alerta a professora.
O sofrimento silencioso dos gatos
Se os cães costumam latir, tremer ou buscar o colo do tutor, nos gatos o sofrimento pode ser silencioso e, por isso, frequentemente subestimado. De acordo com a médica veterinária Vitória Fontes, especialista em medicina felina da Unifran, os gatos assustados tendem a desaparecer dentro da própria casa, buscando refúgio em armários, frestas, basculantes ou telhados.
“O gato assustado nem sempre faz barulho ou procura contato físico. Ele pode ficar escondido por horas, parar de comer, urinar fora da caixa de areia ou ficar temporariamente mais reativo ao toque. O silêncio do felino, nesses casos, não significa que ele está tranquilo”, esclarece a médica veterinária.
A orientação para tutores de felinos é preparar a casa antes do jogo: fechar portas, janelas e basculantes para evitar fugas em altura; manter o animal em um cômodo seguro; e nunca forçar a sua saída do esconderijo escolhido, o que aumentaria ainda mais o estresse.
O risco invisível para os animais de rua e comunitários
Para quem vive na rua, o barulho é um desafio sem rota de fuga. Cães comunitários e colônias de gatos assustados correm sem direção, o que gera risco imediato de acidentes de trânsito. “Após o anúncio de gols e finais de partidas, os motoristas devem redobrar a atenção nas ruas, pois animais em pânico podem atravessar as vias de forma repentina”, alerta Marcela.
Para proteger os animais de rua, a comunidade pode adotar medidas coletivas simples, como evitar fogos com estampido e não soltar rojões nas proximidades de praças, colônias, abrigos ou clínicas veterinárias. Oferecer abrigo temporário e seguro em garagens e áreas cobertas também ajuda a salvar vidas, mas tentar capturar um animal de rua assustado à força exige cuidado, pois o pânico pode provocar comportamento de defesa (mordidas e arranhões).
Até as aves sofrem com a vibração dos fogos
Embora cães e gatos sejam os primeiros lembrados nas campanhas de conscientização, as aves urbanas sofrem impactos severos com as explosões sonoras. Estudos com radares meteorológicos já registraram aumentos expressivos e anômalos de aves em voo logo após queimas de fogos, indicando deslocamentos em massa em horários nos quais as espécies deveriam estar em repouso.
“As aves urbanas compartilham o ambiente conosco e, para elas, os fogos não são apenas som. Há luz, vibração, fumaça e odor no ar, gerando uma mudança brusca e assustadora no ambiente. Isso provoca decolagem em massa, desorientação e abandono de ninhos e áreas de descanso, o que gera um gasto energético prejudicial à sobrevivência delas”, explica Marcela Aldrovani.
Como torcer sem estampido?
As especialistas da Unifran destacam que é plenamente possível torcer e vibrar pelo esporte de forma segura e empática. Para quem vai comemorar, a mensagem é trocar os rojões com barulho por fogos de efeito visual (sem estampido), bandeiras, cornetas manuais e camisas.
Para quem tem pets em casa, as orientações de segurança incluem:
- Antecipar os passeios diários para horários bem distantes dos jogos.
- Manter os animais dentro de casa, com portas e janelas fechadas.
- Ligar a TV ou música em volume moderado para abafar os ruídos externos.
- Verificar se a identificação do animal na coleira está atualizada.
- Em caso de animais com histórico de pânico intenso ou automutilação, consultar um médico veterinário previamente para avaliar a necessidade de suporte clínico.
