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Índia entra em alerta após casos de vírus raro e reacende debate global

Índia entra em alerta após casos de vírus raro e reacende debate global sobre vigilância científica e antecipação de epidemias

O alerta emitido pelas autoridades da Índia após a confirmação de dois casos do vírus Nipah voltou a acender um sinal de atenção na comunidade científica internacional. O patógeno raro, transmitido por morcegos, pode provocar quadros graves, como insuficiência respiratória e edema cerebral, com taxa de mortalidade que pode chegar a 75%.

Os casos ocorreram no estado de Bengala Ocidental e envolveram duas profissionais de saúde que atuavam em um hospital local. Segundo autoridades sanitárias, ambas tiveram contato com um paciente com sintomas respiratórios graves. Cerca de 180 pessoas foram testadas, e contatos considerados de alto risco foram colocados em quarentena. Uma das enfermeiras permanece internada em estado crítico.

“Embora o vírus não tenha registro de circulação no Brasil, episódios como esse reacendem um debate que extrapola fronteiras: como identificar ameaças infecciosas antes que elas se transformem em crises globais”, reforça Maria Isabel de Moraes-Pinto, infectologista do Alta Diagnósticos e coordenadora de vacinas na Dasa.

Da reação à antecipação

A discussão ganha ainda mais força diante de evidências recentes da comunidade científica internacional sobre a importância da vigilância precoce. Um estudo publicado no International Journal of Infectious Diseases analisou como a organização da ciência em redes colaborativas pode mudar a forma como o mundo responde a surtos e epidemias emergentes(1).

A pesquisa mostra que, quando instituições de diferentes países atuam de forma integrada, é possível reduzir o intervalo entre o surgimento dos primeiros sinais e a adoção de medidas de contenção. Desde 2021, iniciativas como Abbott Pandemic Defense Coalition, reúne dezenas de instituições públicas e privadas, entre elas a Dasa – líder em medicina diagnóstica no país – em mais de 20 países, permitindo a análise de milhares de amostras clínicas, a identificação de surtos relevantes e a detecção de vírus até então desconhecidos em humanos (1).

Para Natália Gonçalves, superintendente de P&D e Novos Produtos da Dasa, o cenário reforça a necessidade de mudar a lógica tradicional da saúde pública: “As grandes ameaças infecciosas não surgem com aviso prévio, mas deixam sinais. A diferença está em conseguir enxergá-las cedo, interpretar corretamente e agir rápido. Quando a ciência atua de forma conectada, o tempo de resposta muda completamente”, afirma.

Inteligência coletiva e circulação de dados

Historicamente, a resposta a surtos foi marcada pela fragmentação: diferentes protocolos, limitações técnicas e pouca troca de informações entre países. O estudo aponta que a integração entre hospitais, universidades, laboratórios e autoridades sanitárias cria um modelo mais ágil, em que dados clínicos, genômicos e epidemiológicos circulam com maior velocidade.

Na prática, esse tipo de articulação permitiu a identificação precoce de surtos em diferentes regiões do mundo, favorecendo respostas mais rápidas por parte dos sistemas de saúde locais. Segundo Leonardo Vedolin, VP médico da Dasa, esse modelo amplia o papel do diagnóstico no enfrentamento das doenças infecciosas. “Hoje, o diagnóstico vai além de confirmar um agente conhecido. Ele passa a ter um papel estratégico na vigilância, ajudando a identificar padrões atípicos e sinais de alerta antes que o número de casos aumente de forma significativa.”

O papel do sequenciamento genômico

Outro ponto destacado é a incorporação de tecnologias avançadas, como o sequenciamento genômico de nova geração aliado a ferramentas de bioinformática, especialmente aplicadas em amostras sem diagnóstico conclusivo em exames convencionais. Essa estratégia possibilitou a identificação de vírus e variantes previamente desconhecidos, ampliando a capacidade dos sistemas de saúde de antecipar e mapear riscos antes que eles evoluam para emergências de grandes proporções (1).

“A vigilância moderna não se restringe ao que já é conhecido; ela exige atenção ao que ainda não foi caracterizado. É nesse espaço que emergem os sinais de alerta mais relevantes” explica Natália Gonçalves.

Formação e legado científico

Além da detecção de patógenos, o estudo também aponta para um efeito estruturante: o fortalecimento das expertises científicas locais. A formação de pesquisadores, o treinamento em diagnóstico molecular e a criação de infraestruturas laboratoriais duradouras são apontados como fatores decisivos para tornar os países mais preparados diante de futuras ameaças (1).

Esse legado é visto por especialistas como essencial em um mundo marcado pelo aumento da circulação internacional, mudanças ambientais e maior contato entre humanos e animais silvestres, essa combinação que favorece o surgimento de novos vírus.

Um alerta que ultrapassa fronteiras

Casos como o do vírus Nipah, ainda restritos a determinadas regiões, funcionam como lembretes sobre a dinâmica das doenças infecciosas no século 21. O risco imediato pode ser localizado, mas o aprendizado é global. Para especialistas, o ponto central não é o medo de uma nova pandemia, mas a capacidade dos sistemas de saúde de reconhecer rapidamente o inesperado.

“A história recente evidencia que, nas epidemias, o principal fator de agravamento não é apenas o agente infeccioso, mas o atraso na identificação e circulação da informação. Quando os sinais são detectados precocemente, o impacto pode ser substancialmente reduzido”, afirma Leonardo Vedolin.

Na avaliação de Natália Gonçalves, episódios internacionais como o ocorrido na Índia reforçam a importância de investir continuamente em ciência, integração de dados e preparo técnico — mesmo fora dos períodos de crise.

“Não se trata apenas de responder quando o surto aparece, mas de manter estruturas ativas o tempo todo. A vigilância precisa existir antes da emergência. O alerta vindo da Índia, portanto, não fala apenas sobre um vírus raro. Ele evidencia uma transformação em curso na saúde global: a de que antecipação, cooperação científica e capacidade de leitura precoce dos sinais podem definir o rumo de futuras”, finaliza a infectologista do Alta Diagnósticos.

Referência

(1) RODGERS, Mary A. et al. Robust mission-driven responses to infectious disease threats delivered by the Abbott Pandemic Defense Coalition. International Journal of Infectious Diseases, v. 162, p. 108162, 2026.

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