Nos primeiros cinco meses de 2026, o Sistema Único de Saúde (SUS) contabilizou 693 internações, 168 óbitos e um custo hospitalar direto de R$ 905.437,00 em decorrência da doença de Alzheimer no Brasil. Os dados¹ do DATASUS ilustram o peso financeiro e social das demências que atingem cerca de 1,7 milhão de brasileiros com mais de 60 anos e, segundo estimativas do estudo científico² publicado na Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia, deve alcançar mais 5 milhões de pessoas no país até 2050 em razão do envelhecimento populacional.
Diante desse cenário e do fato de que até 80% dos casos nacionais ainda permanecem sem diagnóstico nas fases iniciais, o Alzheimer representa um dos maiores desafios da medicina contemporânea.
Para orientar a população sobre as transformações no diagnóstico e no tratamento da doença, especialistas da Dasa, empresa líder em medicina diagnóstica no Brasil, respondem a cinco perguntas centrais sobre o tema.
1. O cérebro está envelhecendo mais rápido? Como identificar sinais precoces de declínio cognitivo?
Em uma rotina marcada por estresse, privação de sono e excesso de estímulos, lapsos de memória tornaram-se cada vez mais comuns. Entretanto, de acordo com o dr. Diogo Haddad, médico neurologista do Alta Diagnósticos – marca premium da Dasa em São Paulo e no Rio de Janeiro –, o envelhecimento cerebral fisiológico não deve ser confundido com a degeneração causada pela doença de Alzheimer.
“O esquecimento ocasional de um nome ou de um compromisso isolado faz parte do envelhecimento normal. O alerta surge quando a pessoa passa a repetir as mesmas perguntas em um curto intervalo de tempo, perde a capacidade de administrar as próprias finanças e organizar as tarefas habituais, se desorienta em locais conhecidos ou apresenta dificuldade persistente para aprender informações novas. Reconhecer esses sinais precocemente é fundamental para investigar suas causas e iniciar uma avaliação especializada”, explica o médico.
2. Por que algumas pessoas desenvolvem Alzheimer e outras não?
A doença de Alzheimer é caracterizada pelo acúmulo anormal da proteína beta-amiloide no cérebro, que forma placas que desencadeiam uma série de alterações biológicas capazes de comprometer a comunicação entre os neurônios e favorecer a neurodegeneração. Embora idade avançada e fatores genéticos (como a presença do alelo APOE ε4) sejam importantes fatores de risco não modificáveis, o desenvolvimento da doença é multifatorial.
Haddad destaca que evidências científicas indicam que aproximadamente 40% dos casos de demência poderiam ser prevenidos ou, pelo menos, adiados por meio do controle de fatores de risco modificáveis.
“A saúde do cérebro está intimamente relacionada com a saúde cardiovascular e metabólica. O controle adequado da hipertensão, do diabetes, do colesterol elevado e da obesidade, associado à prática regular de atividades físicas, ao sono de qualidade, à interação social e ao estímulo cognitivo contínuo, contribui para o desenvolvimento da chamada reserva cognitiva. Essa reserva aumenta a capacidade do cérebro de tolerar alterações neuropatológicas e pode retardar o aparecimento dos sintomas clínicos.”
3. Quais são as novidades no diagnóstico do Alzheimer?
De acordo com Natalia Gonçalves, superintendente de Pesquisa e Desenvolvimento da Dasa, a medicina diagnóstica está avançando no rastreio do Alzheimer, e as principais novidades são os exames de sangue de alta sensibilidade: testes que mensuram biomarcadores plasmáticos (como a dosagem das proteínas p-Tau217, p-Tau181 e a relação entre as proteínas beta-amiloide 42 e 40), identificando alterações biológicas antes mesmo de sintomas graves se manifestarem.
Além disso, o diagnóstico preciso exige a combinação da análise laboratorial com exames de imagem de alta tecnologia. O dr. José Leite, especialista em medicina nuclear do Sérgio Franco e da CDPI, da Dasa, explica que o PET-CT amiloide com florbetabeno é uma ferramenta inovadora e muito importante na avaliação da doença.
“A avaliação tradicional – baseada em critérios clínicos e testes cognitivos – nem sempre permite esclarecer o diagnóstico nos estágios iniciais. No PET-CT amiloide, administramos um radiofármaco marcado com flúor-18, capaz de se ligar às placas de proteína beta-amiloide depositadas no cérebro. O exame permite visualizar e estimar essa carga, fornecendo uma evidência biológica importante da doença de Alzheimer e contribuindo para um diagnóstico mais preciso e precoce”, explica Leite.
Ele complementa que cabe ao médico assistente definir a melhor estratégia combinada entre exames de sangue e imagem. “Quanto mais cedo a condição é identificada, maiores são as chances de planejar intervenções que retardem a progressão da doença e preservem a qualidade de vida do paciente”, afirma.
4. Estamos realmente entrando em uma nova era de tratamento do Alzheimer?
No campo farmacológico, saímos de um modelo focado apenas no alívio de sintomas para a era da medicina de precisão e transformadora da doença, como explica Natalia Gonçalves. “A recente chegada das terapias imunológicas com anticorpos monoclonais representa a maior transformação dos últimos 30 anos no controle da doença.”
Historicamente, os tratamentos disponíveis para a doença de Alzheimer eram voltados principalmente para o controle dos sintomas, sem atuar diretamente nos mecanismos biológicos associados à progressão da doença.
Hoje, existe um avanço importante no tratamento da condição por meio de terapias de infusão com as substâncias lecanemabe (Leqembi®) e donanemabe (Kisunla®). Trata-se de medicamentos modificadores da doença que atuam na proteína beta-amiloide, reduzindo seus depósitos no cérebro e, com isso, retardando a progressão do declínio cognitivo em pacientes elegíveis.
“No Núcleo da Memória do Alta Diagnósticos, essa nova realidade exige uma abordagem multidisciplinar que integra diagnóstico por meio de biomarcadores, avaliação criteriosa da elegibilidade, acompanhamento por ressonância magnética e monitoramento contínuo durante todo o tratamento. Mais do que administrar um medicamento, trata-se de oferecer uma jornada completa de cuidado”, reforça Natália Gonçalves.
5. O que os pacientes e familiares podem esperar dos medicamentos recentemente aprovados?
Os medicamentos recentemente aprovados não representam uma cura para o Alzheimer, mas conseguem retardar, de forma significativa, a velocidade da progressão da doença em pacientes elegíveis tratados nas fases iniciais.
“Na prática, retardar a progressão significa preservar por mais tempo a autonomia, a independência e a capacidade funcional. Isso pode permitir que o paciente continue reconhecendo familiares, participando das atividades do dia a dia e mantendo a qualidade de vida durante um período maior.”
Haddad ressalta, entretanto, que esses tratamentos exigem critérios rigorosos: “Essas terapias são indicadas apenas para pacientes nas fases iniciais da doença e dependem da confirmação da presença de patologia amiloide por biomarcadores, seja por meio de exames de sangue validados, PET amiloide ou análise do líquido cefalorraquidiano (liquor). Além disso, durante todo o tratamento, são indispensáveis o acompanhamento clínico especializado e o monitoramento periódico por ressonância magnética para garantir a máxima segurança”, conclui o neurologista.