Alimentação na amamentação: o básico funciona

Alimentação na amamentação: o básico funciona e ajuda a proteger a saúde da mãe e do bebê

No Agosto Dourado, professora de Nutrição do UniCuritiba explica quais nutrientes merecem atenção, quanto a lactante deve comer a mais e esclarece mitos sobre café, cólicas e alimentos que aumentariam a produção de leite

Celebrado em agosto, o Agosto Dourado chama a atenção para a importância do aleitamento materno e para os cuidados que ajudam a tornar esse período mais saudável para mães e bebês. Entre eles está a alimentação materna. Durante a amamentação, o organismo da mulher trabalha intensamente para garantir a produção de leite, aumentando as necessidades de energia e líquidos e tornando a alimentação equilibrada ainda mais importante, não apenas para o bebê, mas também para preservar as reservas nutricionais da própria mãe.

De acordo com a professora do curso de Nutrição do UniCuritiba Andressa Volpe, um dos primeiros cuidados deve ser com a hidratação. A ingestão de líquidos precisa ser aumentada de acordo com a sede, já que sentir sede é um sinal inicial de desidratação.

A demanda energética também cresce. A produção de leite pode representar um gasto de aproximadamente 700 kcal por dia, mas isso não significa acrescentar a mesma quantidade à alimentação. “Em média, são adicionadas cerca de 400 kcal ao cálculo da dieta da mãe que amamenta”, explica a nutricionista.

Mais importante do que simplesmente comer mais, porém, é observar a qualidade do que vai para o prato. Cereais integrais, frutas, verduras, fibras e proteínas magras devem fazer parte da rotina. “A mãe deve priorizar alimentos naturais e frescos, cereais integrais e proteínas magras, evitando alimentos industrializados que, no geral, contribuem com calorias, sódio e muita gordura, mas não aumentam o consumo de vitaminas e minerais”, orienta.

Carboidrato também é importante

Andressa ressalta que os três macronutrientes — carboidratos, proteínas e lipídios — são necessários durante a amamentação e alerta para dietas que excluem grupos alimentares sem orientação profissional.

Entre as fontes de carboidratos estão arroz, pão, batata, mandioca, cará e inhame. Já as proteínas podem vir tanto de alimentos de origem animal quanto de fontes vegetais, como feijões, lentilha, grão-de-bico, soja e tofu.

No caso das gorduras, a recomendação é priorizar fontes vegetais, como azeite de oliva, abacate, castanhas e amêndoas.

Alguns nutrientes merecem atenção especial porque a alimentação materna pode influenciar sua presença no leite. É o caso do DHA, ácido graxo da família do ômega 3. “Quanto maior a ingestão de DHA pela mãe, maior sua concentração no plasma materno e no leite, levando a uma maior ingestão pelo bebê”, explica Andressa. Algumas vitaminas do complexo B e minerais, como o iodo, também podem sofrer influência da dieta materna.

Leite nutritivo pode vir às custas das reservas da mãe

Uma alimentação inadequada não significa necessariamente que o leite materno ficará “fraco”, outro conceito frequentemente associado à amamentação. Segundo Andressa, o organismo tende a priorizar a produção do leite, utilizando, quando necessário, as reservas nutricionais maternas.

“De maneira geral, o organismo materno tende a priorizar a produção de leite. Isso significa que o leite sai nutritivo às custas das reservas da mãe, e isso pode causar depleção de nutrientes na mãe e não no leite”, afirma.

Por isso, cuidar da alimentação durante esse período também significa proteger a saúde materna. No caso das gorduras, por exemplo, não é a quantidade ingerida que torna o leite “mais gorduroso”, mas o tipo de gordura consumida pela mãe pode influenciar o perfil lipídico do leite.

E o cafezinho?

O consumo de café é uma das dúvidas frequentes durante a amamentação. Segundo a professora, o metabolismo da cafeína varia entre as pessoas, o que torna difícil estabelecer uma regra que funcione da mesma maneira para todas as mulheres.

Como a cafeína é estimulante do sistema nervoso central, Andressa recomenda cautela. “A recomendação fica em torno de 80 a 100 mg por dia, referente a uma xícara de café. Na minha prática, se a mãe não tem o hábito de tomar café, seguimos sem o café. Se tem o hábito, seguimos com uma xícara por dia, até as 15 horas”, orienta.

Já em relação ao álcool, a recomendação é não consumir, especialmente nos primeiros seis meses de vida da criança. Em situações de consumo eventual, a nutricionista explica que existem estratégias para evitar a oferta do leite produzido após a ingestão de álcool, que devem ser orientadas individualmente.

Ultraprocessados também devem ser reduzidos ao mínimo possível, principalmente por apresentarem alta densidade calórica e baixo valor nutricional. Por outro lado, alimentos condimentados não precisam ser automaticamente retirados da dieta: de maneira geral, eles não interferem na aceitação do leite pelo bebê.

Cerveja preta e canjica aumentam o leite?

Entre os conselhos transmitidos de geração em geração estão alimentos que supostamente aumentariam a produção de leite ou, no sentido oposto, provocariam cólicas no bebê. De acordo com Andressa, não há evidências científicas que sustentem essas associações.

“Cerveja preta e canjica, por exemplo, eram consumidas com esse fim, mas não há relação com o aumento da produção de leite. Trata-se de um mito”, esclarece.

O mesmo vale para a ideia de que determinados alimentos consumidos pela mãe seriam responsáveis pelas cólicas do bebê. Atualmente, explica a professora, sabe-se que as cólicas estão relacionadas ao processo de formação da microbiota intestinal e podem envolver diversos fatores, como tipo de parto, necessidade de suplementação e contato com o ambiente hospitalar.

“A literatura científica não sustenta que algum alimento esteja diretamente relacionado às cólicas do bebê nem que algum alimento tenha o poder de aumentar a produção de leite. A mãe deve seguir uma alimentação equilibrada e rica em alimentos naturais. É o básico que funciona”, resume.

Existem medicamentos e fitoterápicos que podem ser utilizados em situações específicas para auxiliar a produção de leite, mas eles devem ser prescritos por profissionais habilitados, como médicos ou nutricionistas.

A professora lembra ainda que a recomendação é de aleitamento materno exclusivo até os seis meses de idade, período em que não há necessidade de oferecer água ou chás ao bebê. Depois da introdução alimentar, o aleitamento pode ser mantido até os dois anos ou mais.

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