Especialistas do CEUB explicam como a convivência com os cães influencia o bem-estar e alertam para dependência emocional e humanização excessiva
Companhia nos dias difíceis, festa na chegada do tutor e presença garantida no sofá ou na cama. Para muitas pessoas, os cachorros passaram de animais de estimação e ocupam um lugar importante na vida afetiva da família. Mas o que explica uma ligação tão forte entre cães e humanos? E existe um limite para esse afeto? No Dia do Cachorro, celebrado em 26 de agosto, especialistas do Centro Universitário de Brasília (CEUB) explicam como esse vínculo é construído, quais benefícios a convivência pode trazer e quando a relação começa a provocar prejuízos para o tutor ou para o próprio animal.
Segundo Adriane Rayde, pesquisadora do curso de Psicologia do CEUB, e Michelle Andrade, professora e orientadora da instituição, a conexão não surge de uma hora para outra. Ela se desenvolve na convivência e nas experiências compartilhadas ao longo do tempo. “O vínculo é construído na convivência. O cão está presente na rotina, recebe e oferece interação, participa de momentos bons e acompanha o tutor em períodos difíceis. Com o tempo, essa presença ganha significado emocional. Muitas vezes, o tutor encontra no animal companhia, carinho e relação de confiança”, explicam.
Os cães também passam a fazer parte das memórias e dos hábitos familiares. Participam de mudanças, viagens, comemorações, perdas e diferentes fases da vida. Essa presença constante ajuda a explicar por que tantos tutores os consideram integrantes da família. “Quando uma pessoa diz que seu cão é da família, precisamos compreender o significado afetivo dessa fala. Para aquele tutor, existe uma história compartilhada e um vínculo que merece ser respeitado”, afirma Adriane.
A convivência pode favorecer o bem-estar
Ter um cachorro envolve responsabilidades diárias, como oferecer alimentação, organizar passeios, brincar e acompanhar a saúde do animal. Esses compromissos podem ajudar a estabelecer uma rotina mais organizada e ativa. “Um simples passeio pode estimular a pessoa a sair de casa, caminhar e encontrar outras pessoas. A convivência também proporciona momentos de brincadeira, carinho e companhia. Tudo isso pode favorecer o bem-estar”, observa a psicóloga do CEUB.
Os passeios também podem contribuir para a socialização. Encontros entre cães frequentemente aproximam seus tutores e criam oportunidades para conversas, troca de experiências e novos vínculos. Segundo Adriane Rayde, isso não significa, no entanto, que a companhia do animal substitua cuidados médicos ou psicológicos quando eles são necessários. O cachorro pode fazer parte de uma rede de afeto e apoio, mas não deve ser colocado como única fonte de segurança emocional do tutor.
Quando o apego se torna prejudicial?
Amar muito um cachorro não representa, por si só, um problema. O alerta aparece quando a relação começa a limitar a vida do tutor ou comprometer o bem-estar do animal. De acordo com a psicóloga do CEUB, é importante observar situações em que a pessoa se afasta de familiares e amigos, abandona atividades importantes, sofre excessivamente diante de pequenas separações ou depende do cachorro para se sentir segura e acolhida.
“Precisamos ter cuidado para não considerar todo apego intenso como algo prejudicial. O ponto principal não é a quantidade de amor, mas o impacto que essa relação está tendo na vida de ambos”, explica. Do lado do cão, sofrimento intenso quando fica sozinho, dificuldade para se afastar do responsável e necessidade constante de contato podem indicar dependência excessiva ou ansiedade. Mudanças persistentes de comportamento devem ser avaliadas por um médico-veterinário.
Humanizar não é o mesmo que amar
Outro risco aparece quando o tutor passa a tratar o cachorro como se ele tivesse as mesmas necessidades e emoções que uma pessoa. “Podemos amar profundamente um animal, considerá-lo parte da família e ainda assim respeitar sua natureza. Um vínculo saudável envolve carinho, cuidado e responsabilidade, mas também o reconhecimento de que o cão possui necessidades próprias”, afirma Adriane.
Segundo o médico-veterinário do CEUB Taynã Matos, os cães também estabelecem vínculos afetivos com seus responsáveis. “Isso pode ser percebido quando o animal busca proximidade, acompanha o responsável pela casa, demonstra alegria ao reencontrá-lo e apresenta redução do estresse em sua presença. Muitos demonstram sinais de tristeza ou ansiedade na ausência”, explica. De acordo com o docente do CEUB, esses comportamentos podem indicar que o animal associa o tutor a proteção, previsibilidade e segurança.
Como construir uma relação saudável?
A convivência equilibrada combina afeto, cuidados com a saúde, limites e respeito às características da espécie. Alimentação adequada, vacinação e vermifugação em dia, acompanhamento veterinário, exercícios, brincadeiras, estímulos mentais, socialização e um ambiente seguro são essenciais. O tutor também deve permitir que o cachorro exerça comportamentos naturais, como farejar, explorar ambientes, passear, mastigar objetos apropriados, descansar e interagir.
Esse equilíbrio resume o que o animal precisa para ter qualidade de vida: “Cão feliz é aquele que se sente amado, mas que pode agir como cão”. O especialista alerta que a humanização excessiva pode trazer consequências para a saúde e o comportamento do animal. Ansiedade, insegurança, dependência, falta de limites e obesidade provocada pela oferta de alimentos inadequados estão entre os possíveis problemas. “O cão precisa ser tratado com carinho, mas respeitando sua natureza de animal”, reforça o veterinário.

