| Setembro é o mês de conscientização cardiovascular, por isso endocrinologista reforça que risco de infarto e AVC deve ser analisado de forma individualizada e considerar, além do colesterol, histórico familiar, diabetes, obesidade, triglicérides e outros marcadores |
| Durante muito tempo, falar em colesterol alto significou praticamente olhar para dois números: LDL, conhecido como “colesterol ruim”, e HDL, o chamado “colesterol bom”. Embora o LDL continue sendo um dos principais alvos da prevenção cardiovascular, o conhecimento sobre as dislipidemias avançou e hoje a avaliação do risco de desenvolver doenças cardiovasculares é mais ampla. O perfil lipídico deve ser interpretado em conjunto com idade, pressão arterial, diabetes, tabagismo, obesidade, histórico familiar e outras condições clínicas. A discussão ganha relevância no mês de conscientização cardiovascular. “Níveis elevados de LDL, conhecido como ‘colesterol ruim’, têm papel causal direto na aterosclerose (processo caracterizado pela inflamação e acúmulo de lipídios na parede das artérias), que pode resultar em infarto do miocárdio e AVC. Esse efeito é cumulativo: quanto maior o LDL e mais prolongada a exposição, maior o risco ao longo da vida”, declara Dr. André Camara de Oliveira, endocrinologista da diretoria da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Regional São Paulo (SBEM-SP). Ele acrescenta explicando que triglicérides elevadas também se associam a maior risco cardiovascular, principalmente por refletirem o aumento de lipoproteínas ricas em triglicérides e de suas partículas remanescentes. Já a interpretação do HDL, o ‘colesterol bom’, mudou: valores baixos ainda indicam maior risco e frequentemente acompanham um perfil metabólico desfavorável, mas simplesmente elevar o HDL com medicamentos não significa maior proteção cardiovascular, pois isso não reduziu infartos nos estudos clínicos. Isso significa que duas pessoas com o mesmo valor de LDL podem não apresentar o mesmo risco. Um paciente com diabetes, hipertensão, tabagismo ou doença cardiovascular já estabelecida, por exemplo, pode precisar de metas de colesterol mais rigorosas do que uma pessoa sem esses fatores. Além do painel tradicional – colesterol total, LDL, HDL e triglicérides –, outros exames podem ser considerados em situações específicas. Entre eles está a lipoproteína(a), ou Lp(a), cuja concentração é fortemente determinada pela genética e que é reconhecida como fator independente de risco para doença cardiovascular aterosclerótica. A Endocrine Society recomenda considerar sua dosagem especialmente em pessoas com histórico pessoal ou familiar de doença cardiovascular precoce ou histórico familiar de Lp(a) elevada. Outro marcador que vem ganhando espaço é a apolipoproteína B (ApoB). Como ela está presente nas partículas capazes de participar da formação das placas de aterosclerose, sua dosagem pode ajudar a caracterizar melhor o risco em determinados pacientes, particularmente quando o perfil lipídico tradicional não conta toda a história. “A literatura atual inclui ApoB e Lp(a) entre as variáveis adicionais que podem complementar a avaliação moderna das dislipidemias”, reforça Dr. André. Outro aspecto importante é investigar por que o perfil lipídico está alterado. Diabetes, obesidade e algumas doenças hormonais podem modificar os níveis de colesterol e triglicérides. Um exemplo clássico é o hipotireoidismo, que pode aumentar tanto o colesterol quanto os triglicérides. Por isso, recomenda-se excluir hipotireoidismo como causa da alteração antes de iniciar medicamentos para redução dos lipídios e reavaliar o perfil após a normalização dos hormônios tireoidianos. No diabetes tipo 2, o cuidado merece atenção especial. É frequente a combinação de triglicérides elevados e HDL reduzido, e esses pacientes muitas vezes apresentam simultaneamente hipertensão, excesso de peso e alterações da glicemia, compondo um cenário de maior risco cardiovascular. “Mudanças no estilo de vida permanecem na base da prevenção: alimentação adequada, atividade física regular, controle do peso, abandono do cigarro e controle da pressão arterial e da glicemia são fundamentais. Entretanto, quando o risco cardiovascular é elevado, apenas mudar hábitos pode não ser suficiente”, reforça o endocrinologista. As estatinas continuam sendo a principal classe de medicamentos utilizada para reduzir o LDL e prevenir eventos cardiovasculares. Dependendo do risco do paciente e da resposta ao tratamento, outros medicamentos podem ser associados. A intensidade do tratamento deve considerar o risco cardiovascular global e não apenas o resultado isolado do exame de colesterol. A mensagem para a população é simples: não basta perguntar se o colesterol está “alto ou baixo”. A pergunta mais importante é qual risco aquele conjunto de resultados representa para aquela pessoa. Consultas periódicas, avaliação dos fatores de risco e acompanhamento adequado permitem identificar precocemente quem precisa de intervenção e reduzir a probabilidade de infarto, acidente vascular cerebral e outras complicações da aterosclerose. |
