Correr pode afetar os joelhos?

Impacto, frequência dos treinos, fortalecimento muscular e histórico de lesões influenciam os riscos e os benefícios da corrida

A corrida está cada vez mais presente na rotina dos brasileiros, mas uma dúvida costuma surgir entre quem já pratica ou pensa em começar a atividade: correr pode causar desgaste nos joelhos? Segundo o chefe da Divisão de Traumatologia e Ortopedia do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (INTO), o ortopedista Cláudio Feitosa, a resposta depende das condições de cada pessoa e, principalmente, de como o corpo está preparado para receber a carga do exercício.

“Em pessoas com joelhos sadios, que têm peso adequado e preparo físico, a corrida só traz benefícios. Para quem é sedentário, o ideal é começar aos poucos. O problema está em ignorar dores e condições ortopédicas já existentes”, explica o especialista.

Embora a corrida esteja associada a benefícios para a saúde cardiovascular, o bem-estar e o fortalecimento muscular, algumas situações exigem cuidados específicos. Pessoas que passaram por cirurgias no joelho, por exemplo, devem conversar com o médico responsável antes de iniciar ou retomar a prática. A liberação depende do procedimento realizado, da recuperação e das condições individuais.

Para quem tem prótese de joelho, por exemplo, a corrida não costuma ser indicada, devido à possibilidade de aumentar o desgaste do implante. Nesses casos, atividades de menor impacto, como caminhada, bicicleta, natação, hidroginástica, pilates e musculação, podem ser alternativas mais adequadas.

O ortopedista também chama a atenção para pessoas com artrose. Segundo Feitosa, na maioria dos casos, a corrida pode agravar o quadro, por isso a indicação deve ser avaliada individualmente.

Por outro lado, os avanços nas cirurgias do joelho ampliaram as possibilidades de recuperação e de retorno às atividades esportivas. Procedimentos menos invasivos, com o uso de guias e equipamentos específicos para a reconstrução da articulação, contribuem para esse cenário. Hoje, cirurgias de preservação dos meniscos, tratamentos voltados à melhora e à manutenção da cartilagem e reconstruções de ligamentos permitem que pessoas que passaram por esses procedimentos voltem à prática esportiva, inclusive em competições de alto nível.

Para quem leva uma vida sedentária e decide começar a correr, a principal recomendação é evitar mudanças bruscas na rotina. A adaptação deve ocorrer de forma gradual, com aumento progressivo da intensidade e do tempo de exercício.

“A caminhada pode ser o primeiro passo. Começar com períodos de 20 ou 30 minutos e aumentar gradualmente, conforme a resposta do organismo, permite desenvolver condicionamento antes de partir para a corrida”, orienta Feitosa.

A preparação física também é importante. Antes de iniciar uma rotina de exercícios, especialmente para quem está sedentário ou apresenta fatores de risco, uma avaliação de saúde pode ajudar a identificar possíveis limitações e orientar a evolução do treinamento.

“É um conjunto de ações para adequar o peso, trabalhar e fortalecer a massa muscular e fazer com que a corrida faça o bem que ela pode fazer”, avalia o ortopedista.

A escolha do tênis também merece atenção. O calçado deve ser confortável, adequado à atividade e proporcionar segurança durante o exercício. Pessoas com alterações importantes na pisada ou problemas ortopédicos específicos podem precisar de avaliação profissional para identificar a opção mais adequada às suas características.

“Para o paciente que tem uma pisada muito alterada, é ideal que o ortopedista oriente que tipo de tênis utilizar”, explica Feitosa.

Por fim, o médico reforça que a dor não deve ser ignorada por quem pratica corrida. Se o desconforto persistir mesmo após o repouso ou não melhorar com as medidas habituais, a recomendação é procurar avaliação médica. O acompanhamento profissional ajuda a identificar a causa dos sintomas e a orientar os cuidados necessários para uma prática esportiva mais segura.