Do inverno para o ano todo, quente ou gelado, o chá virou uma experiência de sabores

Do mate com gelo às infusões de frutas e especiarias, novas combinações ampliam os momentos de consumo de uma bebida antiga no Brasil

O inverno pede uma xícara fumegante de camomila. Quando a temperatura sobe, o mate pode ir para o copo com gelo e limão. Entre os dois, há espaço para frutas, ervas e especiarias que transformam o chá em uma escolha pelo sabor, sem precisar de frio nem de uma ocasião especial.

O hábito tem raízes antigas no Brasil, sobretudo no consumo de erva-mate. A novidade está na variedade de preparos e na disposição de experimentar. Em análise sobre a América Latina, a Euromonitor International associa o interesse dos brasileiros por chás à busca por bem-estar e prevê crescimento dos chás de frutas e ervas no país entre 2024 e 2029. A consultoria também aponta oportunidades para novos momentos de consumo da bebida.

Para Henrique Fontana, diretor da Chás Real, empresa paranaense responsável pela marca Mate Real, conquistar esses momentos depende tanto do paladar quanto da proposta do produto. “As pessoas querem chás que tenham funcionalidade e sabor. Se você lança um produto funcional com gosto ruim, a tendência é não dar certo”, afirma. Uma das combinações recentes da fabricante reúne cúrcuma, gengibre e pimenta-preta.

Fontana observa que o consumidor brasileiro tende a preferir bebidas suaves e aromáticas, com notas naturalmente adocicadas, cítricas ou refrescantes. Esse gosto abre caminho para misturas de frutas, ervas e especiarias e ajuda a tirar o chá da antiga associação exclusiva com uma xícara quente antes de dormir.

A família de Fontana, desde 1834 no setor, já acompanhou várias mudanças na maneira de consumir a bebida. Segundo o empresário, a experiência artesanal com sachês de mate surgiu na década de 1930. Em 1979, a Chás Real lançou a linha Multiervas, levando aos sachês ervas até então preparadas in natura ou secas à granel. Hoje, a empresa processa cerca de 2 milhões de quilos de erva-mate, camomila e outros insumos por ano.

O chá continua sendo a pausa quente no fim do dia. Mas também cabe na jarra da tarde, no copo com gelo ou na vontade de descobrir um sabor novo. Para quem cresceu tomando mate, talvez a surpresa esteja menos na bebida do que nas maneiras de servi-la.

Preparar também é parte do ritual

Mais do que uma bebida quente, o chá carrega uma tradição que atravessa séculos. Na Inglaterra, a chamada afternoon tea, popularizada no século XIX e associada à aristocracia, inclusive à corte britânica — transformou o ato de tomar chá em um ritual social, com horário, louças próprias, acompanhamentos e uma maneira particular de servir e degustar. A tradição da “hora do chá” chegou a ser incorporada à rotina da realeza e permanece até hoje como uma referência de elegância e hospitalidade.

Mas, para apreciar verdadeiramente um chá, o ritual começa antes do primeiro gole. A qualidade da água, a temperatura e o tempo de infusão interferem diretamente no aroma, na cor e no sabor. A água deve ser aquecida de acordo com o tipo de chá, sem necessariamente chegar à fervura em todos os casos. Depois, as folhas ou o sachê devem permanecer em infusão pelo tempo indicado, evitando a extração excessiva de compostos que podem deixar a bebida amarga.

“Preparar um chá é respeitar o tempo da bebida. A temperatura da água, o tempo de infusão e a qualidade da matéria-prima fazem diferença no resultado final. Quando esses cuidados são observados, o chá deixa de ser apenas uma bebida e passa a ser uma experiência sensorial”, explica Fontana.

Na degustação, vale observar primeiro a aparência e a cor da infusão, aproximar a xícara para perceber os aromas e só então provar, em pequenos goles. Dependendo da variedade, podem aparecer notas herbais, florais, frutadas, terrosas, adocicadas ou tostadas. Açúcar, leite, limão e outros complementos podem fazer parte da tradição de determinados tipos de chá, mas experimentar a bebida pura ajuda a perceber suas características.

No fim, a “hora do chá” talvez seja menos sobre o relógio e mais sobre criar uma pausa. Um pequeno ritual que convida a desacelerar, prestar atenção aos sentidos e transformar alguns minutos do dia em uma experiência de sabor e convivência.

Receitas de Familia

O Mate Real também encontra espaço na cozinha como ingrediente de bolos, brigadeiros e outras receitas. Na família de Henrique Fontana, diretor da Chás Real, esses preparos passam de geração em geração, preservando sabores e memórias. Entre eles estão o bolo com brigadeiro de mate tostado, receita de sua mãe, Ana Dalgiza de Almeida Fontana, e o mate caramelizado com leite.

Bolo tradicional com brigadeiro de Mate Real

Receita de família de Ana Dalgiza de Almeida Fontana, mãe de Henrique Fontana.

Ingredientes da massa

  • Ovos
  • Açúcar
  • Leite
  • Farinha de trigo
  • Manteiga ou óleo
  • Fermento em pó

Utilize as quantidades da sua receita habitual de bolo simples.

Ingredientes da cobertura

  • 1 lata de leite condensado
  • 1 colher de sopa de manteiga
  • Infusão bem concentrada de Mate Real tostado a granel

Modo de preparo

  1. Prepare a massa conforme sua receita habitual de bolo simples e asse até ficar dourada e macia.
  2. Para a cobertura, coloque em uma panela o leite condensado, a manteiga e a infusão concentrada de Mate Real.
  3. Mexa em fogo baixo até ficar cremoso e atingir o ponto de cobertura.
  4. Espalhe sobre o bolo e sirva.

Chá mate tostado caramelizado com leite

Receita de família de Henrique FontanaRendimento: 4 porções

Ingredientes

  • 4 colheres de sopa de açúcar
  • 4 colheres de sopa de Mate Real tostado a granel
  • Leite integral quente, em quantidade suficiente para 4 porções

Modo de preparo

  1. Coloque o açúcar em uma panela e leve ao fogo baixo até derreter e formar um caramelo dourado.
  2. Acrescente o Mate Real tostado a granel e misture rapidamente.
  3. Quando começar a borbulhar, adicione o leite quente aos poucos, mexendo bem, de preferência com uma colher de pau.
  4. Mexa até incorporar, coe e sirva quente.