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Depois que o bebê nasce, quem cuida da mãe?

Enquanto toda a atenção se volta para o recém-nascido, especialistas alertam que a saúde física e emocional da mulher influencia diretamente a amamentação, o sono, o vínculo e até o desenvolvimento infantil. O problema é que, muitas vezes, ela deixa de ser paciente justamente quando mais precisa de cuidados.

O bebê nasce cercado de atenção. Ainda na maternidade, passa por exames, recebe vacinas, tem consultas agendadas e uma série de recomendações para acompanhar seu crescimento e desenvolvimento. A mãe, por outro lado, costuma deixar o hospital carregando muito mais do que um recém-nascido nos braços. Ela volta para casa com um corpo em recuperação, alterações hormonais intensas, noites fragmentadas, dúvidas sobre a amamentação, mudanças na rotina e uma nova identidade para construir.

Mesmo vivendo uma das fases mais exigentes da vida, muitas mulheres deixam de ser o centro do próprio cuidado justamente quando mais precisam de acompanhamento.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica o período pós-parto como uma fase crítica para a saúde materna e recomenda acompanhamento contínuo da mulher nas semanas seguintes ao nascimento do bebê. Além da recuperação física, esse período exige atenção para questões emocionais, nutricionais, hormonais e sociais que podem impactar diretamente a saúde da mãe e da criança.

Na prática, porém, ainda existe uma cultura que concentra praticamente toda a assistência no recém-nascido.

“A primeira pergunta que quase todo mundo faz é: ‘O bebê está bem?’. É uma pergunta importante, claro. Mas existe outra que também deveria ser feita: ‘E você, como está?’. Muitas mães deixam de ser pacientes justamente quando mais precisam de cuidado”, afirma a pediatra Dra. Gigliola Peláez, especialista em amamentação com certificação internacional IBCLC (International Board Certified Lactation Consultant), especialista em sono infantil e que atua no acompanhamento integral da dupla mãe-bebê.

Segundo ela, esse olhar limitado pode comprometer não apenas a recuperação da mulher, mas também a amamentação, o sono, o vínculo familiar e o desenvolvimento do bebê.

Cuidar da mãe também é cuidar da criança

Durante décadas, a Pediatria concentrou seus esforços, naturalmente, na prevenção e no tratamento das doenças infantis. Mas, nos últimos anos, uma série de estudos passou a demonstrar que o bem-estar materno influencia diretamente os desfechos relacionados ao bebê.

A própria OMS e o UNICEF defendem que a promoção do aleitamento materno depende não apenas da vontade da mulher, mas também de uma rede de apoio estruturada, acompanhamento profissional qualificado e políticas públicas que garantam condições para que a amamentação aconteça.

No Brasil, dados do Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (ENANI-2019) mostram que aproximadamente 45,8% das crianças menores de seis meses recebem aleitamento materno exclusivo, percentual superior ao registrado em décadas anteriores, mas ainda distante da meta global estabelecida pela OMS, que pretende alcançar 70% até 2030.

Para a Dra. Gigliola, esses números ajudam a mostrar que incentivar a amamentação vai muito além de orientar a mãe a oferecer o peito.

“Quando uma mulher sente dor para amamentar, não consegue descansar, está emocionalmente sobrecarregada ou enfrenta dificuldades que ninguém percebe, é muito mais difícil manter a amamentação. Não basta olhar para o bebê. Precisamos entender como essa mãe está vivendo o pós-parto.”

A mãe continua sendo paciente

No consultório da Dra. Gigliola, a primeira consulta de um recém-nascido dura entre duas horas e meia e três horas.

O motivo não é apenas a avaliação detalhada da criança.

É porque, antes de examinar o bebê, ela examina a mãe.

“Quero entender como foi a gestação, como aconteceu o parto, como está a recuperação, se existe dor, como está a produção de leite, a alimentação, a suplementação, os exames, a saúde emocional e quais são as maiores dificuldades daquela mulher. Só depois vou avaliar o bebê.”

Essa abordagem nasceu da experiência adquirida durante anos de atuação em pronto-socorro pediátrico.

Segundo a médica, era comum receber famílias extremamente angustiadas porque o bebê chorava muito, parecia não mamar bem ou não dormia como imaginavam.

“Muitas vezes, depois de examinar a criança, percebíamos que ela estava saudável. O que precisava de atenção era a mãe. Ela estava exausta, insegura, com fissuras nas mamas, sem dormir, alimentando-se mal ou começando a apresentar sinais de ansiedade.”

Foi dessa percepção que surgiu seu modelo de atendimento voltado para a dupla mãe-bebê.

“A mãe também vira minha paciente. Não é possível cuidar de um recém-nascido sem cuidar de quem passa praticamente vinte e quatro horas por dia ao lado dele.”

A amamentação acontece no corpo de uma mulher

Grande parte das campanhas de incentivo ao aleitamento materno destaca os benefícios do leite para o bebê.

De fato, as evidências são robustas.

Segundo a OMS, o aleitamento materno reduz o risco de infecções respiratórias, diarreias, obesidade, diabetes tipo 2 e pode contribuir para melhor desenvolvimento cognitivo. Para a mulher, está associado à redução do risco de câncer de mama, câncer de ovário e diabetes tipo 2, além de favorecer a recuperação uterina após o parto.

Mas existe uma discussão que ainda recebe pouco espaço: a amamentação acontece no corpo de uma mulher que também precisa de cuidados.

Livre demanda, despertares noturnos, adaptação hormonal, dor, fissuras, ingurgitamento mamário e insegurança fazem parte da realidade de muitas famílias nas primeiras semanas.

“Existe um mito de que amamentar acontece naturalmente para todas as mulheres. Na verdade, a amamentação também é um aprendizado. Algumas mães precisam apenas de pequenos ajustes na pega. Outras precisam tratar fissuras, reorganizar a rotina ou até corrigir questões nutricionais e hormonais.”

Segundo a especialista, um dos maiores equívocos é acreditar que toda dificuldade significa falta de leite.

“Leite fraco praticamente não existe. Quando há baixa produção, precisamos entender a causa. Pode haver dor, pouca estimulação, alterações hormonais, deficiência nutricional ou outros fatores que podem ser tratados.”

O peso invisível das noites mal dormidas

Poucas experiências transformam tanto a rotina quanto o nascimento de um filho.

Levantamentos internacionais estimam que pais de recém-nascidos podem perder centenas de horas de sono ao longo do primeiro ano de vida da criança, especialmente nos primeiros meses, quando as mamadas noturnas ainda fazem parte do desenvolvimento esperado.

Para a Dra. Gigliola, esse impacto costuma ser subestimado.

“O bebê acorda porque isso faz parte da maturidade neurológica dele. Mas quem também acorda é a mãe. Quando essa privação de sono se prolonga, ela interfere na recuperação física, na produção de leite, no humor e na capacidade de enfrentar os desafios do dia.”

Especialista também em sono infantil, ela explica que não existe sono do bebê separado do sono da família.

“Quando atendemos apenas a criança, perdemos uma parte importante da história. É preciso entender como todos estão dormindo.”

Saúde mental também faz parte da consulta

Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde, aproximadamente 10% das gestantes e 13% das mulheres no pós-parto desenvolvem algum transtorno mental, sendo a depressão pós-parto uma das condições mais frequentes. Em países de média e baixa renda, esses números podem ser ainda maiores. Estudos brasileiros apontam prevalências próximas de 25% em determinados grupos acompanhados pelo sistema de saúde.

Apesar disso, muitas mulheres demoram para procurar ajuda.

Algumas acreditam que o sofrimento faz parte da maternidade.

Outras sentem culpa por admitir que não estão felizes o tempo todo.

Na consulta, a Dra. Gigliola realiza rastreamento para identificar sinais de ansiedade e depressão pós-parto.

“Nem sempre a mãe chega dizendo que está deprimida. Às vezes ela apenas relata que não consegue dormir, chora com frequência, sente culpa o tempo inteiro ou perdeu completamente o prazer pelas atividades. Esses sinais precisam ser valorizados.”

Quando identifica fatores de risco, ela encaminha a paciente para profissionais especializados em saúde mental da mulher e acompanha a evolução durante as consultas pediátricas.

“Não existe separação entre saúde emocional da mãe e saúde do bebê.”

O corpo da mulher continua mudando

As transformações do puerpério não terminam na maternidade.

Durante a lactação, a redução dos níveis de estrogênio pode provocar ressecamento vaginal, diminuição da lubrificação natural, dor nas relações sexuais e alterações do assoalho pélvico.

Uma revisão científica publicada em 2025, reunindo 65 estudos internacionais, identificou uma prevalência estimada de 53,6% de ressecamento vaginal entre mulheres lactantes, além de índices relevantes de dor durante a relação sexual ao longo do primeiro ano após o parto.

Para a fisioterapeuta pélvica Regiane Migliorini, essas mudanças são frequentes, mas ainda pouco discutidas.

“Muitas mulheres acreditam que sentir dor na relação depois de ter um bebê é normal e que precisam apenas esperar passar. Na realidade, boa parte desses sintomas pode ser avaliada e tratada.”

Segundo ela, a fisioterapia pélvica pode auxiliar na recuperação muscular, na melhora da circulação, no tratamento da dor e na orientação para um retorno mais confortável à vida sexual.

Rede de apoio não é luxo. É necessidade.

Outro ponto frequentemente negligenciado é a carga mental da maternidade.

Diversos estudos mostram que mulheres continuam concentrando a maior parte dos cuidados relacionados ao bebê e à organização da rotina familiar, mesmo quando retornam ao trabalho.

Essa sobrecarga impacta diretamente a saúde física e emocional.

“Quando a mãe consegue dormir um pouco, alimentar-se com calma, tomar banho ou simplesmente descansar porque alguém assumiu o cuidado do bebê por alguns minutos, isso também faz parte do tratamento.”

Para a médica, fortalecer a rede de apoio deve ser uma responsabilidade compartilhada entre parceiros, familiares, empresas e profissionais de saúde.

“Cuidar da mãe não é um favor. É uma estratégia de promoção de saúde para toda a família.”

A pergunta que precisa ganhar espaço

Nos últimos anos, a ciência avançou muito na compreensão dos primeiros mil dias de vida da criança.

Mas talvez exista uma pergunta igualmente importante que ainda fazemos pouco.

Como está a mulher que cuida desse bebê?

Para a Dra. Gigliola, responder essa questão pode mudar completamente a experiência da maternidade.

“Quando a mãe recebe orientação, acolhimento, tratamento e acompanhamento adequado, ela consegue amamentar com mais segurança, cuidar melhor da própria saúde e viver esse período de forma menos solitária. No fim das contas, cuidar da mãe também é uma das formas mais importantes de cuidar do bebê.”