Luto prolongado: quando a dor da perda merece atenção

Diagnóstico reconhecido como transtorno mental pela OMS considera a persistência do sofrimento e seu impacto na rotina

A morte de alguém próximo pode mudar a rotina, as relações e a maneira como uma pessoa enxerga a própria vida. Não existe prazo certo para lidar com essa ausência, mas, quando a dor permanece intensa por meses e dificulta a retomada das atividades cotidianas, é importante prestar atenção. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece o transtorno do luto prolongado na 11ª Revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID-11), condição que exige avaliação profissional e não deve ser confundida com o processo natural de luto.

Entre os sinais estão a saudade persistente de quem morreu, a dificuldade de aceitar a perda e a sensação de que a vida perdeu o sentido. Algumas pessoas também se afastam de amigos e familiares, deixam de se interessar por atividades de que gostavam ou encontram dificuldade para trabalhar, estudar e cuidar de si.

“Não é o tempo, isoladamente, que determina se uma pessoa está vivendo um transtorno do luto prolongado, mas a persistência do sofrimento e o quanto ele compromete sua vida. Sentir saudade e tristeza faz parte do luto. O sinal de alerta aparece quando a dor dificulta a retomada das atividades, a manutenção dos vínculos e a construção de uma rotina”, explica Aline Sabino, psiquiatra dos Hospitais São Camilo de São Paulo.

Na CID-11, o diagnóstico considera a persistência dos sintomas por pelo menos seis meses após a perda, o sofrimento intenso, o prejuízo significativo na vida cotidiana e o contexto cultural e social da pessoa. O período, por si só, não determina a existência do transtorno. A avaliação profissional considera o conjunto das manifestações e a maneira como elas interferem na rotina.

De acordo com a especialista, alguns sinais merecem atenção:

  • Saudade intensa e persistente: a pessoa passa grande parte do tempo pensando em quem morreu ou sente uma necessidade intensa de estar perto dessa pessoa.
  • Dificuldade de aceitar a perda: mesmo depois de meses, continua sentindo forte incredulidade diante da morte.
  • Sensação de vazio ou perda de identidade: sente que perdeu parte de si ou não consegue imaginar como seguir a vida sem a pessoa que morreu.
  • Afastamento social: evita encontros, conversas e situações que antes faziam parte da rotina.
  • Perda de interesse pelas atividades cotidianas: encontra dificuldade para retomar projetos, interesses e relações que antes eram importantes.
  • Prejuízo na rotina: tem dificuldade para trabalhar, estudar, cuidar de si ou manter compromissos habituais.

A presença de um ou mais desses sinais não significa, por si só, que exista um transtorno. O luto varia de pessoa para pessoa, e datas, lembranças e situações específicas podem reavivar a tristeza mesmo muito tempo depois da morte. O que merece atenção é a persistência de um sofrimento intenso, especialmente quando a pessoa encontra dificuldade para se adaptar à perda e conduzir a própria vida.

Familiares e amigos podem ajudar ao perceber mudanças persistentes de comportamento e oferecer apoio sem pressionar a pessoa a superar a perda em determinado prazo. “É importante evitar tanto a cobrança para que o enlutado siga em frente quanto a interpretação de que toda tristeza prolongada é uma doença. Quando há isolamento persistente e dificuldade de retomar a vida cotidiana, vale incentivar uma avaliação profissional”, afirma a especialista.

A orientação é procurar um psicólogo ou psiquiatra quando o sofrimento se torna difícil de administrar ou compromete a vida pessoal e social. O reconhecimento do transtorno pela OMS não significa transformar toda experiência de perda em doença, mas identificar quem precisa de cuidado especializado, respeitando a história e o tempo de cada pessoa.