Mulher liberal não é mulher fácil

Duas mulheres com mais de uma década de meio liberal contam como aprenderam a impor limites

Quando Naty Love on Fire, como é conhecida no meio liberal, entrou pela primeira vez em uma casa de swing, era Dia dos Namorados e o lugar estava lotado. Ela e o marido tinham escolhido a casa que diziam ser a melhor de São Paulo, porque não faziam ideia do que iam encontrar. “Eu era uma mulher muito insegura com meu corpo, com a minha aparência, com tudo. As pessoas olhavam, passavam perto, queriam conversar, queriam colocar a mão. Chegava a ser meio bizarro”, lembra.

Quase dez anos depois, aos 42, Naty olha para aquela noite de outro jeito. “Eu achava que, para ter esse estilo de vida, a gente tinha que estar no padrão da sociedade. Não é isso. A sociedade impõe um padrão e, no meio liberal, a gente faz o nosso”.

Histórias como a dela ajudam a mostrar uma face do meio liberal que costuma ficar fora da conversa: a das mulheres que encontraram ali um espaço para rever a autoestima, negociar limites e decidir sobre o próprio desejo. Elas também enfrentam um estereótipo antigo, o de que a mulher liberal está disponível para qualquer pessoa e qualquer prática.

Combinados antes de tudo

A curiosidade de Naty começou no Instagram, quando ela ainda morava no interior de São Paulo e acompanhava posts de uma mulher do meio liberal. Ela mostrou os posts para o marido, os dois começaram a pesquisar e a conversar e a decisão de conhecer o meio veio depois da mudança para Osasco, na Grande São Paulo. “A gente não sabia muita coisa, sabia o que tinha lido. Mas sabia que era importante conversar e ter os nossos acordos.”

Hoje, trabalha como recepcionista em uma oficina mecânica, é cozinheira de formação, mãe de três filhos e avó. Em dezembro, completa 20 anos de casamento, e há um ano e três meses também tem um namorado. “A gente já tinha muita confiança um no outro, mas na liberdade a gente se conheceu muito mais.”

A comunicadora Bibi Lotie, 37 anos, está no meio liberal há mais de 12 anos. Ela é formada em Letras, pós-graduada em Sexualidade Humana e especialista em Psicologia Sexual. Também chegou ao meio a partir de uma conversa com o então marido, e começou pesquisando antes de ir a uma casa liberal. O que mais chamou sua atenção na primeira visita foi a diversidade: “Pessoas de diferentes idades, corpos e estilos, convivendo em um ambiente onde a liberdade sexual era vivida com uma naturalidade que eu ainda não tinha encontrado em outros espaços.”

Bibi questiona uma ideia comum no meio liberal. “Costumo ouvir que o meio liberal melhora as relações, mas considero essa afirmação simplista. Ter experiências sexuais com outras pessoas não melhora automaticamente relacionamento nenhum. O que pode fortalecer uma relação é a comunicação que essas experiências exigem.” Para ela, o casal que decide viver o meio liberal precisa ter conversas sobre desejos, inseguranças e limites que muitas vezes nunca teve antes.

“Liberdade não é disponibilidade”

Bibi tem cerca de 124 mil seguidores no Instagram e 92 mil no TikTok. Ela diz que os comentários preconceituosos fazem parte da rotina de quem fala de sexualidade em público, mas o estereótipo que mais quer desconstruir é outro. “A ideia de que mulheres do meio liberal são fáceis, disponíveis ou sem critérios revela muito sobre como a sociedade ainda enxerga a liberdade sexual feminina. A liberdade de uma mulher jamais deveria ser confundida com disponibilidade irrestrita. Não somos objetos à disposição das fantasias masculinas.”

Para ela, ser livre não tem a ver com quantas experiências uma mulher vive. “Uma mulher pode desejar viver inúmeras experiências ou nenhuma delas. O fundamental é que essa decisão seja realmente dela, sem pressão para satisfazer o parceiro ou corresponder às expectativas de outras pessoas.”

Combinar regras antes do encontro é uma forma de evitar esse tipo de situação. No ysos, aplicativo de encontros casuais, o público encontra filtros detalhados, verificação de perfis, chats e galerias privadas, para que casais e solteiras alinhem expectativas e limites antes de se encontrar. 

Autoestima que não depende do olhar do outro

As duas contam que o meio liberal mudou a forma como se enxergam, mas não da mesma maneira. Para Naty, foi uma virada: “Me ensinou a me amar do jeito que eu sou. Pra mim, como mulher, foi algo que mudou muito a minha vida.”

Bibi diz que passou a se reconhecer “como uma mulher que deseja, mas também como alguém que pode despertar desejo”, e faz uma ressalva: “A autoestima precisa ser construída por nós mesmas. Ela não pode depender exclusivamente da validação ou do desejo de outras pessoas.” Se tivesse que resumir em uma palavra o que descobriu sobre si mesma nesses anos, escolheria “potência”: “A potência que temos para sentir, desejar, experimentar prazer e ocupar espaços com a nossa própria voz.”

Para as mulheres que têm curiosidade sobre o meio, mas ainda sentem medo, os conselhos se completam. Naty pede que, antes de tudo, elas se amem: “Todas merecem se sentir irresistíveis, lindas, maravilhosas.” Bibi lembra que conhecer o meio liberal não obriga ninguém a ficar nele: “É perfeitamente possível conhecer esse universo e concluir que ele não combina com você. E está tudo bem. A liberdade de escolher também precisa incluir a liberdade de dizer não.”