O que caracteriza uma traição: a presença de uma terceira pessoa ou a quebra de um acordo entre duas pessoas?
A pergunta ganha novos contornos à medida que diferentes formas de relacionamento passam a ser discutidas de maneira mais aberta. Para o Gleeden, plataforma de encontros extraconjugais e relações não monogâmicas, o debate sobre fidelidade também passa por entender que cada casal pode estabelecer seus próprios limites e acordos.
Um dos exemplos que mais desafiam a concepção tradicional de traição é o cuckold, dinâmica em que uma pessoa pode sentir prazer ao saber, imaginar ou acompanhar o envolvimento sexual do parceiro ou da parceira com outra pessoa. Embora ainda seja tratado muitas vezes como tabu ou fantasia, o fenômeno também faz parte da vida real de casais que estabelecem esse tipo de acordo.
Quando a terceira pessoa deixa de ser uma traição
No Brasil, um dos exemplos mais conhecidos é o da influenciadora Bella Mantovani e seu marido, Vagner “Fera” Macedo, que falam publicamente sobre a dinâmica cuckold/hotwife vivida pelo casal.
Na relação dos dois, experiências com terceiros são discutidas e fazem parte dos acordos estabelecidos pelo próprio casal. Fera chegou a se apresentar publicamente como o “maior corno do Brasil” e chegou a enviar ao Guinness World Records uma solicitação para tentar ser reconhecido como o “maior corno do mundo”, iniciativa que não resultou em um recorde oficial.
Por trás do tom provocativo e bem-humorado da história, existe uma questão que vai muito além do fetiche: quem determina o que é traição dentro de uma relação?
Bella e Fera afirmam que sua dinâmica é construída a partir de diálogo, consentimento, liberdade e limites definidos pelos dois.
Para Thaís Plaza, terapeuta sexual e embaixadora do Gleeden no Brasil, a diferença fundamental está justamente nos acordos.
“Uma infidelidade não é simplesmente a presença de uma terceira pessoa. Temos que observar os acordos daquela relação. Quando existe consentimento para uma determinada experiência, estamos falando de uma dinâmica completamente diferente de descobrir que um acordo de exclusividade foi quebrado às escondidas.”
Do fetiche à realidade
O interesse pelo cuckold pode ter diferentes motivações. Para algumas pessoas, pode envolver voyeurismo, o prazer de perceber que o parceiro é desejado, ciúme, transgressão, novidade ou simplesmente uma fantasia sexual. Não existe uma única explicação para o interesse pela prática.
E fantasia, desejo e prática não são necessariamente a mesma coisa.
“Uma pessoa pode se excitar com uma fantasia durante anos e nunca desejar colocá-la em prática. Para quem decide experimentar, o ponto central deve ser o consentimento genuíno, a comunicação e a possibilidade de interromper ou renegociar os acordos a qualquer momento”, explica Thaís.
A especialista também destaca que aceitar uma prática por medo de perder o relacionamento, por pressão do parceiro ou para provar que é uma pessoa “de mente aberta” não caracteriza consentimento verdadeiramente livre.
O que dizem os usuários do Gleeden?
Levantamentos divulgados pelo Gleeden ajudam a dimensionar o interesse dos brasileiros pelo tema.
Em uma pesquisa sobre cuckolding, 36% dos entrevistados afirmaram que gostariam de ver o parceiro com outra pessoa, enquanto 60% disseram que aceitariam estar com outra pessoa enquanto o parceiro observa. O dado que mais chama atenção para a discussão sobre fidelidade é que 91% consideraram que, quando existe consentimento entre as partes para incluir uma terceira pessoa na relação, não há infidelidade.
Outro levantamento realizado pela plataforma com 9.380 usuários brasileiros mostrou que 95% declararam ter algum tipo de fetiche, embora apenas 4% afirmassem já ter realizado todas as suas fantasias. Voyeurismo e exibicionismo apareceram entre os interesses mencionados.
Os números não significam que exista um único modelo de relacionamento sendo adotado, mas ajudam a mostrar que desejos, fantasias e acordos afetivo-sexuais podem ser mais diversos do que a ideia tradicional de monogamia pressupõe.
Novos relacionamentos, novos acordos
O debate também se conecta a uma transformação mais ampla na maneira como os adultos discutem relacionamentos e não monogamia.
Segundo outro estudo divulgado pelo Gleeden em 2025, 53% dos brasileiros entrevistados afirmaram já ter vivido algum tipo de relação não monogâmica, enquanto 42% declararam ter uma visão positiva sobre a não monogamia.
Para Thaís Plaza, esses dados não significam o desaparecimento da monogamia, mas indicam uma maior disposição para discutir quais regras fazem sentido para cada relação.
“Não existe um modelo afetivo-sexual que funcione para todo mundo. Há pessoas plenamente felizes na monogamia e outras que constroem acordos diferentes. O problema começa quando presumimos que a outra pessoa conhece uma regra que nunca foi discutida. Relações precisam de acordos, e acordos precisam de diálogo.”
É justamente nesse espaço de discussão que o Gleeden propõe ampliar a conversa: mais do que definir o que é certo ou errado para todos, entender quais são os limites, desejos e acordos de cada relação.
A história de Bella e Fera mostra que o cuckold pode ultrapassar o campo da fantasia e existir como uma dinâmica consensual entre pessoas reais. Já os dados do Gleeden ajudam a colocar essa experiência dentro de uma discussão maior sobre desejo, não monogamia e novas formas de compreender a fidelidade.
No fim, talvez a pergunta mais importante não seja “o que a sociedade considera traição?”, mas:
o que você e seu parceiro consideram traição?
