Náusea, tontura e mal-estar durante viagens podem estar relacionados a um conflito de informações entre sinais confusos enviados ao cérebro pelos olhos e pelo ouvido interno
Aquela sensação de enjoo, tontura e mal-estar durante uma viagem pode não ser apenas um desconforto passageiro. Um estudo realizado pela Headache Center Brasil, em São Paulo, identificou uma possível relação entre a ocorrência de cinetose na infância e quadros de enxaqueca vestibular na vida adulta. Segundo a pesquisa, 73,6% dos pacientes adultos com enxaqueca e tontura apresentaram cinetose durante a infância.
Afinal, o que é cinetose? Também conhecido popularmente como “enjoo de movimento”, esse distúrbio acontece quando o cérebro recebe informações conflitantes sobre o deslocamento do corpo. Os olhos, o ouvido interno e os músculos enviam sinais ao cérebro para ajudar na percepção de movimento, posição e equilíbrio. Quando essas informações não correspondem entre si, podem surgir sintomas como náusea, tontura, suor frio e mal-estar.
“O labirinto é como o sensor de movimento da cabeça. Na cinetose, o cérebro não consegue organizar de forma eficiente a informação que recebe do labirinto, visão e tato, o que acaba causando esses sintomas de mal-estar”, explica a otorrinolaringologista Lisandra Arima, do Hospital IPO.
O papel do labirinto na cinetose
O problema está diretamente relacionado ao funcionamento do labirinto, estrutura localizada no ouvido interno que faz parte do sistema vestibular. Esse sistema é responsável por fornecer informações importantes para que o cérebro compreenda a posição e os movimentos do corpo, contribuindo para a manutenção do equilíbrio e da orientação espacial.
Durante uma viagem de carro, por exemplo, o labirinto percebe acelerações, freadas e curvas, enquanto os olhos podem estar concentrados em um celular ou em um livro, recebendo uma informação diferente sobre o movimento. Esse conflito entre os sentidos pode fazer com que o cérebro tenha dificuldade para interpretar corretamente o que está acontecendo no corpo e desencadear os sintomas da cinetose.
Quem está mais sujeito à cinetose?
A cinetose pode ocorrer com qualquer pessoa, mas alguns indivíduos apresentam maior sensibilidade aos estímulos de movimento. Pessoas que já tiveram episódios de tontura ou apresentam alterações no funcionamento do labirinto também podem ter características que merecem atenção, principalmente quando os sintomas são frequentes ou aparecem mesmo fora de situações de movimento. De acordo com a otorrinolaringologista “Pessoas com histórico pessoal ou familiar de enxaqueca têm maior predisposição à cinetose, mas isso não significa que o problema seja exclusivo desse grupo”.
Apesar de o problema estar geralmente associado a viagens e outros deslocamentos, é importante observar a frequência e a intensidade dos sintomas. Tonturas recorrentes, crises que surgem mesmo quando a pessoa está parada ou manifestações que não têm relação clara com situações de movimento podem indicar que existe outra condição vestibular que precisa ser investigada.
É possível “acostumar” o labirinto?
Em algumas situações, o organismo pode desenvolver um processo de adaptação aos estímulos responsáveis pela cinetose. Com a exposição repetida a determinados movimentos, o sistema vestibular pode passar por um processo de adaptação, fazendo com que os sintomas diminuam em algumas pessoas. No entanto, essa adaptação não significa que todas as pessoas deixarão de apresentar sintomas e também não deve ser confundida com uma forma de tratamento por conta própria.
“A exposição frequente aos movimentos que provocam os sintomas pode fazer parte do tratamento. Uma das estratégias é a reabilitação vestibular, que consiste justamente em trabalhar a adaptação do sistema vestibular aos movimentos ou cenários que desencadeiam a tontura”, ressalta. “Esse processo deve ser realizado com a orientação de um fisioterapeuta especializado. Quando os sintomas são frequentes ou acontecem mesmo sem movimento, é importante investigar se existe alguma outra alteração vestibular associada”, orienta a otorrinolaringologista.
Como prevenir e quando procurar ajuda
Algumas ações simples podem ajudar a reduzir as chances de desenvolver cinetose durante viagens e outras situações de movimento. Entre elas estão evitar a leitura ou o uso prolongado de telas durante o deslocamento e, quando possível, manter os olhos direcionados para o ambiente e para a direção em que o veículo está se movimentando.
Também é importante observar quais situações costumam desencadear os sintomas. Em casos recorrentes, a avaliação de um otorrinolaringologista pode ajudar a identificar se os episódios são compatíveis com uma cinetose típica ou se existe alguma alteração no funcionamento do sistema vestibular que precisa de investigação.
“Os hábitos simples ajudam em casos de cinetose típica. Já para tonturas acompanhadas de perda auditiva, dor de cabeça, visão dupla, dificuldade para caminhar, que aparecem ao se deitar na cama ou que persistem por mais de 24 horas, mesmo sem movimento da cabeça, devem ser investigadas por um especialista”, indica Arima.
Entender o papel do labirinto nesse processo ajuda não apenas a compreender por que algumas pessoas passam mal durante deslocamentos, mas também a identificar quando tonturas e outros sintomas podem indicar a necessidade de uma avaliação especializada.
