Dia Mundial da Saúde Mental: quando a mente pede ajuda antes de chegar ao limite
Burnout que repercute no corpo, mulheres que seguem funcionando mesmo exaustas e crianças que expressam sofrimento pelo comportamento mostram que saúde mental nem sempre dá sinais óbvios; especialistas explicam quando é hora de procurar ajuda
Nem sempre o sofrimento emocional chega na forma de uma crise. Às vezes, ele aparece no corpo que adoece com frequência, na mulher que continua cumprindo todas as tarefas enquanto se sente emocionalmente esgotada ou na criança que, sem conseguir explicar o que sente, começa a dormir mal, se isolar ou apresentar dificuldades na escola.
No Dia Mundial da Saúde Mental, celebrado em 10 de outubro, o convite é ampliar o olhar sobre esses sinais. Em diferentes fases da vida, ansiedade, estresse prolongado e outros sofrimentos psíquicos podem se manifestar de maneiras distintas. O ponto em comum é que não é necessário esperar a vida parar para reconhecer que algo não vai bem.
1. Quando o estresse deixa de ser apenas emocional e começa a aparecer no corpo
Uma rotina de pressão constante não afeta apenas o humor. Quando o organismo permanece durante períodos prolongados em estado de alerta, diferentes respostas fisiológicas entram em ação. É por isso que uma pessoa submetida ao estresse crônico pode começar a perceber alterações que vão muito além da sensação de cansaço.
“O cérebro e o restante do organismo não funcionam como estruturas separadas. Diante de um estresse persistente, há ativação contínua de mecanismos relacionados à resposta ao estresse, com participação de hormônios como cortisol e adrenalina. Quando essa condição se prolonga, pode haver repercussões sobre sono, sistema gastrointestinal, dores musculares e também sobre a regulação do sistema imunológico. O burnout não deve ser entendido simplesmente como estar muito cansado depois de uma semana difícil. Estamos falando de um esgotamento relacionado ao trabalho que pode comprometer de forma importante a saúde e o funcionamento do indivíduo”, explica Dr. Ciro Jorge, médico com especialização em Psiquiatria.
Infecções recorrentes, problemas gastrointestinais, dores de cabeça e musculares e manifestações dermatológicas podem coexistir com períodos de estresse intenso. Esses sintomas, porém, também podem ter inúmeras outras causas e precisam de avaliação adequada, sem que sejam automaticamente atribuídos ao emocional.
2. Continuar dando conta de tudo não significa necessariamente estar bem
Entre as mulheres, existe outro comportamento que pode dificultar a identificação do sofrimento: continuar funcionando. Trabalho, filhos, relacionamentos, responsabilidades domésticas e cuidados com familiares podem ser mantidos mesmo quando há um esforço emocional enorme por trás dessa aparente normalidade.
Para a psiquiatra Dra. Camilla Nicolucci, produtividade não deve ser usada como único termômetro para decidir se alguém precisa ou não de ajuda.
“Uma mulher pode continuar trabalhando, cuidando dos filhos, administrando a casa e cumprindo compromissos enquanto faz um esforço enorme para sustentar essa rotina. Não precisamos esperar que ela pare completamente para reconhecer que existe sofrimento. Mudanças persistentes no sono, apetite, concentração e interesse pelas atividades, crises de ansiedade, irritabilidade, isolamento e sensação constante de esgotamento merecem atenção quando começam a interferir na qualidade de vida. Saúde mental não é apenas conseguir cumprir obrigações, mas também conseguir viver sem permanecer o tempo inteiro em estado de exaustão”, afirma Dra. Camilla Nicolucci, psiquiatra.
A especialista também chama atenção para momentos específicos da vida feminina, como gestação, puerpério, perimenopausa e menopausa. Alterações biológicas podem fazer parte desse contexto, mas não devem ser usadas como explicação automática para todo sofrimento emocional.
3. Procurar um psiquiatra não significa necessariamente tomar medicamento
O estigma ainda é uma das barreiras para buscar atendimento. Para algumas pessoas, a consulta psiquiátrica continua associada apenas a quadros considerados graves ou ao uso obrigatório de medicamentos.
A avaliação, no entanto, pode acontecer antes que os sintomas se tornem incapacitantes e deve considerar não apenas o que a pessoa sente, mas seu histórico, contexto de vida e o impacto das mudanças sobre a rotina.
“Existe ainda a ideia de que só se procura um psiquiatra quando a pessoa já não consegue mais trabalhar, dormir ou realizar suas atividades. Não precisa ser assim. Também não significa que toda pessoa que chegar ao consultório receberá uma prescrição. Medicação não deve ser vista nem como vilã nem como solução automática. Existem situações em que ela é importante e outras em que diferentes estratégias podem ser consideradas. O tratamento precisa ser individualizado e construído a partir das necessidades de cada paciente”, orienta Dra. Camilla Nicolucci.
4. Na infância, sofrimento emocional pode aparecer como mudança de comportamento
Se adultos nem sempre conseguem reconhecer e verbalizar o próprio sofrimento, isso pode ser ainda mais difícil para crianças e adolescentes. Nessa fase, alterações emocionais podem surgir primeiro por meio do comportamento.
Irritabilidade persistente, isolamento, mudanças importantes no sono, perda de interesse pelas brincadeiras, queda no rendimento escolar ou alterações na convivência podem servir como sinais de que alguma coisa mudou.
“Uma criança pode não chegar aos pais dizendo que está ansiosa ou triste. Muitas vezes, é o comportamento que comunica aquilo que ela ainda não consegue colocar em palavras. Isso não significa que toda irritação, nota baixa ou vontade de ficar sozinho represente um transtorno. Precisamos observar duração, intensidade e impacto. Quando existe uma mudança persistente em relação à maneira como aquela criança ou adolescente costumava funcionar, afetando escola, relações, sono ou atividades que antes davam prazer, vale compreender o que está acontecendo”, explica Dr. Tales Vilela, psiquiatra especialista em psiquiatria infantil.
5. Nem toda mudança precisa virar diagnóstico
O aumento da discussão sobre saúde mental trouxe mais informação, mas também exige cuidado para que experiências normais da vida não sejam automaticamente transformadas em doença.
Tristeza, preocupação, frustração, irritação e períodos de maior cansaço fazem parte da experiência humana. O que diferencia uma situação passageira de algo que merece investigação costuma envolver persistência, intensidade e prejuízo no funcionamento cotidiano.
“Precisamos tomar cuidado para não patologizar a infância e a adolescência. Crianças e jovens passam por conflitos, frustrações e mudanças próprias do desenvolvimento. O objetivo de uma avaliação não é procurar um diagnóstico a qualquer custo, mas entender o contexto. Família e escola enxergam aspectos diferentes daquela criança e essa troca pode ser muito importante para perceber se estamos diante de uma dificuldade pontual ou de um sofrimento que precisa de acompanhamento”, ressalta Dr. Tales Vilela.
6. O celular pode ser parte do problema, mas nem sempre é a causa
Quando o assunto é saúde mental de crianças e adolescentes, as telas frequentemente aparecem como primeiras suspeitas. O uso excessivo merece atenção, principalmente quando começa a ocupar o espaço do sono, da atividade física, dos estudos e da convivência presencial.
Ainda assim, o celular não deve virar uma explicação simplista para toda mudança emocional.
“O ponto não é demonizar a tecnologia. Precisamos observar o lugar que ela ocupa na vida daquela criança ou adolescente. Se está prejudicando o sono, afastando do convívio, interferindo nos estudos ou se tornando praticamente a única fonte de prazer, existe um sinal para reorganizar essa relação. Mas também precisamos considerar que, em alguns casos, o uso excessivo pode ser uma consequência de um sofrimento que já estava presente. Apenas retirar o celular sem entender o que existe por trás daquele comportamento pode não resolver o problema”, afirma Dr. Tales Vilela.
7. Pedir ajuda antes do limite também é prevenção
A mensagem que atravessa diferentes idades é que não existe necessidade de esperar uma crise para começar a cuidar da saúde mental. Alterações persistentes no sono, humor, comportamento, relações e capacidade de realizar atividades cotidianas merecem atenção.
No caso de crianças e adolescentes, há sinais que exigem cuidado ainda maior. Falas sobre morte, desejo de desaparecer, automutilação ou desesperança intensa nunca devem ser banalizadas.
“Quando uma criança ou adolescente demonstra um sofrimento dessa dimensão, precisamos levar a sério. Acolher significa mostrar que aquela fala foi ouvida e buscar ajuda. Saúde mental na infância também passa pela construção de um ambiente em que a criança perceba que pode dizer que não está bem sem ser julgada ou tratada como se estivesse apenas querendo chamar atenção”, alerta Dr. Tales Vilela.
Para Dr. Ciro Jorge, a prevenção também passa por rever uma cultura que transforma exaustão em sinônimo de produtividade. “Sono adequado, pausas reais, atividade física, limites entre trabalho e vida pessoal e acompanhamento profissional quando necessário não deveriam ser vistos como luxo. Se o corpo e a mente estão dando sinais repetidos de esgotamento, insistir no mesmo ritmo não é demonstração de força. Reconhecer limites também é uma forma de preservar a saúde”, conclui o médico.
Neste 10 de outubro, talvez uma das principais mensagens do Dia Mundial da Saúde Mental seja justamente essa: não é preciso chegar ao colapso para justificar cuidado. Saúde mental também se faz quando os primeiros sinais são reconhecidos, quando o sofrimento encontra espaço para ser dito e quando pedir ajuda deixa de ser entendido como último recurso.
