OLHO TREMENDO? ESTRESSE, POUCO SONO E EXCESSO DE CAFEÍNA PODEM ESTAR POR TRÁS DO SINTOMA
Neurologista Dr. Saulo Nader, conhecido como Doutor Tontura, explica o que é a miocimia palpebral, por que o tremor aparece, quais fatores podem desencadear o quadro e os sinais que indicam a necessidade de procurar avaliação médica
A sensação é conhecida por muita gente: de repente, a pálpebra começa a tremer de forma involuntária e insistente. O movimento pode durar alguns minutos, reaparecer durante o dia e, em algumas pessoas, permanecer por dias ou até semanas.
O nome médico para esse fenômeno é miocimia palpebral, também conhecida simplesmente como tremor palpebral.
Segundo o Dr. Saulo Nader, neurologista conhecido como Doutor Tontura e especialista em tontura, vertigem e desequilíbrios, na maioria das vezes trata-se de uma condição benigna e passageira.
“É aquele olho tremendo. A gente gosta de dificultar os nomes na medicina, mas podemos chamar simplesmente de tremor palpebral. No geral, é benigno, pode durar algum tempo, dias ou às vezes semanas, e depois some. Do jeito que vem, muitas vezes vai embora”, explica o neurologista.
O tremor pode aparecer tanto na pálpebra superior quanto na inferior. Normalmente ocorre apenas de um lado, embora também possa surgir nos dois olhos ao mesmo tempo.
POR QUE A PÁLPEBRA COMEÇA A TREMER?
Para explicar o fenômeno, Dr. Saulo Nader compara o sistema nervoso à rede elétrica de uma casa.
“O cérebro tem uma atividade elétrica e envia impulsos através dos nervos para todo o corpo. Esses impulsos chegam aos músculos e fazem com que eles se contraiam”, diz o médico.
Os músculos das pálpebras, segundo ele, são pequenos, muito sensíveis e trabalham praticamente o tempo inteiro.
“Você precisa manter os olhos abertos durante o dia e pisca aproximadamente 15 vezes por minuto. São músculos que estão constantemente sendo acionados e exigidos”, ressalta o neurologista.
Na comparação feita pelo médico, esses pequenos músculos funcionariam como lâmpadas muito sensíveis dentro de uma rede elétrica.
Em determinadas situações, principalmente envolvendo estresse, o organismo libera substâncias como cortisol e adrenalina. Segundo o Dr. Saulo Nader, esse estado de maior estimulação pode aumentar a instabilidade das contrações musculares.
“É como quando existe uma instabilidade de energia em casa e a lâmpada mais sensível começa a piscar. Os músculos da pálpebra são pequenos, extremamente sensíveis, muito exigidos e podem começar a apresentar esse tremor”, reforça o médico.
TRÊS FATORES APARECEM COM FREQUÊNCIA
Embora qualquer pessoa possa apresentar tremor palpebral em algum momento da vida, Dr. Saulo Nader destaca três fatores que aumentam a possibilidade de o sintoma aparecer: estresse, privação de sono e excesso de cafeína.
“Às vezes, por trás da miocimia, um desses três fatores está atuando como vilão. O tremor pode estar indicando que alguma coisa da rotina está em excesso e prejudicando a qualidade de vida”, afirma o neurologista.
Pessoas muito estressadas no trabalho ou na vida pessoal e aquelas que convivem com ansiedade podem apresentar o sintoma com maior frequência.
O sono também merece atenção.
“Quem dorme pouco ou não tem um sono de qualidade pode ter mais chance de apresentar esse tremor. Muitas vezes, na rotina corrida, a pessoa estende o trabalho, tenta ter um pouco de entretenimento no fim do dia e quem acaba perdendo espaço é justamente o sono”, observa o médico.
Segundo o neurologista, garantir tempo adequado para dormir deve ser uma das primeiras atitudes de quem percebe o problema de forma recorrente.
“Dormir pouco interfere na cognição, no humor e na saúde de maneira geral. Às vezes, o tremor está simplesmente avisando que o sono não está suficiente”, ressalta Dr. Saulo Nader.
CAFÉ DEMAIS TAMBÉM PODE PESAR
Outro fator destacado pelo médico é o consumo excessivo de cafeína.
Na rotina, nem sempre a pessoa percebe quanto café tomou ao longo do dia.
“Você toma um cafezinho no trabalho, outro durante uma reunião, mais um depois, e quando percebe já consumiu uma quantidade muito grande. Por isso, é importante quantificar”, explica o neurologista.
Dr. Saulo Nader cita como referência aproximadamente dois a três cafés expressos ao dia, equivalentes a cerca de 210 miligramas de cafeína.
Também recomenda evitar cafeína no período noturno.
“Uma dica importante é não utilizar cafeína depois das 18 horas, porque isso também pode interferir no sono”, pontua o médico.
Para quem tem dificuldade em reduzir o hábito, o neurologista lembra que o café descafeinado pode ser uma alternativa.
TELA DEMAIS PODE CANSAR OS OLHOS
O uso prolongado de celular, computador e outras telas também pode contribuir.
Segundo Dr. Saulo Nader, o excesso de exposição pode aumentar o cansaço visual e favorecer o aparecimento das contrações palpebrais.
Por isso, além de observar sono, estresse e cafeína, vale também prestar atenção no número de horas diante das telas.
COMO TENTAR CONTROLAR O TREMOR
Dr. Saulo Nader resume três medidas principais para quem apresenta uma miocimia palpebral típica.
A primeira é reorganizar o sono, reservando entre sete e nove horas para dormir.
A segunda é reduzir e controlar o consumo de cafeína.
E a terceira é reduzir o estresse, incluindo atividades de lazer, meditação e outras estratégias que ajudem a diminuir a tensão da rotina.
Quando existe ansiedade importante, a recomendação é procurar avaliação para tratamento.
“Controlar o estresse e tratar a ansiedade, quando ela está presente, também pode ajudar bastante”, diz o médico.
Dr. Saulo Nader também cita o quinino, substância responsável pelo sabor amargo da água tônica.
“Existem alguns estudos menores mostrando que o quinino poderia ser uma opção para a miocimia facial. Algumas pessoas relatam melhora utilizando água tônica durante alguns dias”, afirma o neurologista.
O médico ressalta ainda que existem medicamentos utilizados para o tratamento da miocimia quando o quadro é persistente ou muito incômodo.
“Se o tremor incomoda muito, vale procurar um neurologista. Existem tratamentos medicamentosos que podem ser utilizados quando existe indicação”, acrescenta Dr. Saulo Nader.
QUANDO O TREMOR DEIXA DE SER APENAS UM INCÔMODO?
Apesar de o tremor palpebral geralmente ser benigno, alguns sinais precisam de atenção.
Um dos diagnósticos que podem inicialmente se confundir com o problema é o espasmo hemifacial.
“Existe o espasmo hemifacial, que pode começar parecendo apenas um tremor da pálpebra. Quando o movimento é muito intenso, começa a pegar outras musculaturas da face ou simplesmente não melhora, é importante procurar avaliação”, alerta o neurologista.
Outros sinais de alerta destacados pelo médico incluem tremores muito fortes ou persistentes, contrações que atingem outras regiões do rosto, queda da pálpebra, alteração da visão, mudanças na pupila ou desvio do olho.
“Se começou a tremer outras áreas do rosto, se existe queda da pálpebra, perda de visão, alteração da pupila ou algum movimento diferente do olho, é importante procurar um neurologista para investigar outros diagnósticos”, reforça Dr. Saulo Nader.
Embora pequenos tremores isolados também possam eventualmente surgir em outros músculos da face, o médico chama atenção para movimentos persistentes fora da pálpebra.
“Quando há outros músculos da face envolvidos, vale investigar, porque podem existir outros diagnósticos diferenciais”, ressalta o neurologista.
O CORPO PODE ESTAR DANDO UM RECADO
Para Dr. Saulo Nader, o tremor palpebral também pode funcionar como um sinal para olhar com mais atenção para a própria rotina.
“A pessoa muitas vezes está dormindo pouco, muito estressada, ansiosa, tomando café demais e usando tela o dia inteiro. O tremor pode ser uma forma de o corpo mostrar que alguma coisa precisa ser reorganizada”, explica o médico.
Na maioria das vezes, o quadro desaparece espontaneamente.
Mas observar os gatilhos e reconhecer os sinais de alerta ajuda a diferenciar um incômodo passageiro de uma situação que precisa ser investigada.
