Chupeta contra o estresse? alerta para riscos à saúde bucal

Hábito adotado por adultos não tem benefício comprovado e pode provocar alterações dentárias, musculares e funcionais

Influenciadores digitais ganharam repercussão recentemente ao aparecerem usando chupeta na vida adulta, sob a justificativa de que o hábito ajudaria a aliviar o estresse, a ansiedade e a proporcionar conforto emocional. Apesar da popularização nas redes sociais, a prática não possui indicação clínica para adultos e pode trazer consequências para a saúde bucal.

A presidente da Câmara Técnica de Ortodontia do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP), Dra. Vanda Domingos, explica que a chupeta não é formalmente contraindicada em todas as situações. Durante a infância, ela pode ser utilizada temporariamente, principalmente no primeiro ano de vida, desde que de forma orientada e por tempo limitado.

“Do ponto de vista odontológico, o problema não está apenas no uso da chupeta, mas na duração, na frequência e na intensidade do hábito. O uso prolongado, especialmente após os 2 ou 3 anos de idade, aumenta significativamente o risco de alterações no desenvolvimento craniofacial e na oclusão”, afirma.

Segundo a especialista, não existe indicação clínica para o uso de chupeta na vida adulta. Quando o acessório é utilizado como forma de controlar a ansiedade ou o estresse, é importante buscar alternativas mais adequadas, pois o hábito pode causar alterações funcionais no conjunto de estruturas responsáveis pela mastigação, deglutição, fala e respiração.

Efeitos do uso prolongado

Nas crianças, o uso prolongado da chupeta está associado a alterações como mordida aberta anterior, mordida cruzada posterior, projeção dos dentes incisivos superiores, inclinação dos incisivos inferiores para trás, estreitamento do arco dentário superior e mudanças no padrão de crescimento facial, explica a cirurgiã-dentista.

Nos adultos, como o crescimento ósseo já foi concluído, o hábito tende a provocar principalmente alterações dentárias e funcionais. Entre elas estão pequenas movimentações dos dentes quando o uso é frequente e prolongado, mudanças na posição da língua, desequilíbrio da musculatura orofacial, agravamento de problemas de mordida já existentes, desconforto muscular e sobrecarga funcional.

Também existe a possibilidade de desencadear ou intensificar sintomas relacionados às articulações temporomandibulares, conhecidas como ATMs.

A Dra. Vanda ressalta, porém, que não há evidências científicas robustas de que a chupeta seja uma causa direta da disfunção temporomandibular (DTM). Entretanto, dependendo da duração e da intensidade do hábito, alterações na mordida e comportamentos orais persistentes podem modificar a função mastigatória e contribuir para a sobrecarga muscular em pessoas predispostas.

Impactos bucais e emocionais

O uso frequente da chupeta por adultos pode causar sobrecarga da musculatura mastigatória, desconforto ou fadiga muscular, agravamento de alterações oclusais preexistentes e pequenas movimentações dentárias. Também pode intensificar sintomas em pacientes que já apresentam predisposição à DTM.

Além dos possíveis impactos bucais, a chupeta não trata a origem da ansiedade ou do estresse. De acordo com a especialista, o hábito pode reforçar um comportamento de dependência emocional e atrasar a procura por estratégias terapêuticas mais eficazes.

“Quando a pessoa sente necessidade frequente de usar a chupeta para lidar com algum desconforto emocional, é importante investigar o que está por trás desse comportamento e buscar o acompanhamento de profissionais capacitados”, orienta.

Recomendações para crianças

As orientações atuais indicam que o uso eventual da chupeta até os 12 meses tende a apresentar baixo impacto sobre a oclusão. Entre 12 e 24 meses, os pais devem iniciar a redução gradual do hábito, com interrupção preferencialmente até os 2 anos de idade. Após os 3 anos, o risco de alterações oclusais aumenta significativamente.

“A intensidade do hábito é determinante. Crianças que utilizam a chupeta apenas para adormecer apresentam menor risco do que aquelas que permanecem várias horas por dia com o acessório. Orientamos os pais a não levarem a chupeta em passeios ou para a escola, limitando o uso ao momento de dormir ou a situações pontuais de estresse e desconforto”, destaca a Dra. Vanda.

A cirurgiã-dentista reforça que, mesmo na infância, a chupeta deve ser usada com orientação e por tempo limitado. Já na vida adulta, ela não deve ser considerada uma forma de tratamento para problemas emocionais.

Embora alguns adultos relatem alívio momentâneo da tensão ao utilizar o acessório, não existem pesquisas científicas suficientes que comprovem benefícios para o controle da ansiedade ou do estresse.

“Do ponto de vista da saúde geral, é aconselhável substituir gradualmente esse hábito por estratégias com maior respaldo científico para a regulação emocional, como técnicas de relaxamento, atividade física, higiene do sono, exercícios respiratórios e, quando necessário, acompanhamento psicológico ou psiquiátrico”, conclui a especialista.