Alzheimer: mudança de comportamento pode ser o primeiro sinal de que algo não vai bem
No mês de conscientização sobre a doença, médico alerta que familiares podem perceber alterações antes mesmo de o paciente reconhecer os sintomas
Esquecer uma informação recente, repetir perguntas, abandonar atividades que sempre fizeram parte da rotina ou começar a apresentar dificuldade para realizar tarefas antes simples. Quando esses comportamentos aparecem, é comum que sejam atribuídos ao envelhecimento, ao cansaço ou até a alterações emocionais. Mas uma mudança persistente no padrão de comportamento merece atenção e pode ser motivo para uma avaliação médica.
Esse é um dos alertas que ganham importância em setembro, mês dedicado à conscientização sobre a doença de Alzheimer. O Dia Mundial e Nacional de Conscientização da Doença de Alzheimer é celebrado em 21 de setembro. A data chama atenção para uma doença que, segundo o Ministério da Saúde, é a causa mais frequente de demência e está associada à deterioração progressiva da memória e de outras funções cognitivas, além de alterações comportamentais e perda de autonomia.
Para o médico de família e comunidade Eduardo Trevizoli Justo, um dos principais diferenciais do acompanhamento continuado é justamente ter uma referência para identificar mudanças. “É como alguém da família. Se você chega em casa e percebe que seu filho ou seu pai está diferente, você nota. Com o paciente que a gente acompanha e conhece, também conseguimos perceber mais precocemente alguma coisa que esteja acontecendo”, afirma.
A observação é especialmente importante porque nem sempre o primeiro sinal é um esquecimento evidente. Mudanças no comportamento, na personalidade, no interesse por atividades e na capacidade de realizar tarefas cotidianas também podem fazer parte do quadro. O Ministério da Saúde relaciona entre os sinais de alerta problemas de memória que afetam atividades e trabalho, dificuldade para realizar tarefas habituais, problemas de comunicação, desorientação, dificuldade de raciocínio, alterações de humor e comportamento e perda de iniciativa.
O que mudou em relação a como essa pessoa era antes?
Para o médico de família, essa talvez seja uma das perguntas mais importantes. “Às vezes, o paciente chega com uma queixa específica: uma dor de cabeça, uma dor de estômago, insônia ou cansaço. Mas também é importante perguntar como ele está, como está se sentindo, como está o humor, se está dormindo bem ou se houve alguma mudança na rotina”, explica Eduardo.
O acompanhamento ao longo do tempo permite comparar o comportamento atual com o histórico daquele paciente. Uma pessoa que sempre foi comunicativa pode ficar mais retraída.
Alguém que costumava cozinhar pode começar a ter dificuldades com receitas conhecidas. Quem sempre administrou as próprias contas pode passar a cometer erros incomuns. Atividades que antes eram realizadas sem dificuldade podem começar a exigir ajuda.
O que chama atenção, portanto, não é simplesmente “esquecer”. É perceber uma mudança progressiva em relação ao funcionamento habitual daquela pessoa, especialmente quando ela começa a interferir na autonomia.
A orientação é particularmente relevante porque a demência não é considerada uma consequência normal do envelhecimento. O Ministério da Saúde ressalta que alterações cognitivas que comprometem funções sociais e atividades do cotidiano precisam ser investigadas.
Nem todo esquecimento é Alzheimer
A identificação de um sinal de alerta não significa que a pessoa tenha Alzheimer. O Ministério da Saúde destaca que problemas cognitivos podem ter diferentes causas. Além das doenças neurodegenerativas, alterações podem estar relacionadas a problemas vasculares, depressão, deficiência de vitamina B12, alterações da tireoide, uso de determinados medicamentos e outras condições. Algumas dessas causas podem ser tratadas ou até revertidas quando identificadas precocemente.
Por isso, o diagnóstico exige avaliação clínica. Histórico de saúde, entrevista com o paciente e familiares, exame físico, avaliação cognitiva e, quando necessário, exames complementares ajudam a investigar a causa dos sintomas. “Perceber que alguma coisa mudou é o começo da investigação. Não significa diagnosticar Alzheimer porque alguém está diferente. É preciso entender o que está acontecendo, há quanto tempo, como isso evoluiu e qual impacto está tendo na vida daquela pessoa”, afirma Eduardo.
Família pode perceber antes do paciente
Em alterações cognitivas, a percepção de familiares e pessoas próximas pode ter um papel importante. A própria avaliação na Atenção Primária à Saúde considera relevante confirmar, quando possível, a percepção de um familiar, cuidador ou pessoa que conviva com o idoso. Uma percepção externa de esquecimento progressivo pode indicar a necessidade de aprofundar a investigação. Isso acontece porque algumas mudanças são mais facilmente percebidas por quem convive diariamente com o paciente do que pela própria pessoa.
Repetir uma mesma pergunta várias vezes, esquecer compromissos recentes, perder-se em um caminho conhecido ou abandonar atividades habituais são situações que podem passar despercebidas quando analisadas isoladamente. Quando começam a se repetir e a comprometer a rotina, entretanto, merecem ser levadas para a consulta. “É importante que a família não espere a situação ficar muito avançada para conversar sobre isso. Se existe uma mudança persistente, vale trazer essa informação para o médico”, orienta Eduardo.
O diagnóstico precoce muda o cuidado
Ainda não existe cura para a doença de Alzheimer, mas identificar o quadro em uma fase inicial permite organizar o cuidado, avaliar possibilidades terapêuticas, orientar familiares e planejar estratégias para preservar a autonomia pelo maior tempo possível.
O Ministério da Saúde destaca que a identificação dos fatores de risco e o reconhecimento da doença em estágio inicial, com encaminhamento adequado, são importantes para o cuidado e o prognóstico. O SUS oferece tratamento multidisciplinar e medicamentos previstos nos protocolos para pessoas com Alzheimer.
Além disso, o diagnóstico permite investigar outras causas que podem estar produzindo sintomas semelhantes. Para Eduardo, esse é um dos motivos pelos quais a consulta não deve se limitar à queixa que levou o paciente ao consultório. “Não é apenas tratar o sintoma. É importante entender o que está acontecendo com aquela pessoa, como ela vivia antes e quais fatores podem estar relacionados à mudança.”
Alzheimer não começa necessariamente com “não lembrar”
A imagem mais conhecida do Alzheimer é a do esquecimento. Embora a perda de memória recente seja um dos sinais mais característicos e frequentemente apareça entre as primeiras manifestações, a doença também pode comprometer linguagem, orientação, raciocínio, capacidade de resolver problemas, comportamento e realização de atividades cotidianas.
Por isso, durante setembro, a recomendação é olhar para além da memória. A pergunta pode ser simples: “O que mudou em relação a como essa pessoa era antes?” Se a resposta indicar uma mudança persistente, progressiva ou que começa a interferir na autonomia, o próximo passo não é tentar descobrir sozinho se é Alzheimer. É levar essa percepção para uma avaliação profissional. “Às vezes, o cuidado começa justamente quando alguém percebe uma mudança e decide perguntar o que está acontecendo”, resume Eduardo.
10 sinais de alerta para o Alzheimer
Nem todo esquecimento é sinal de doença. Mas mudanças persistentes que interferem na rotina merecem avaliação.
- Perda de memória que afeta a rotina
Esquecer informações recentes de maneira frequente, repetir perguntas ou depender cada vez mais de lembretes e familiares. - Dificuldade para realizar tarefas conhecidas
Problemas para executar atividades que antes eram realizadas normalmente, como cozinhar, organizar a casa ou administrar compromissos. - Dificuldade para encontrar palavras ou acompanhar conversas
A pessoa pode ter dificuldade crescente para expressar uma ideia, encontrar palavras ou acompanhar uma conversa. - Desorientação no tempo e no espaço
Confundir datas, horários, lugares ou ter dificuldade para encontrar caminhos conhecidos. - Dificuldade para resolver problemas
Problemas para planejar, organizar ou tomar decisões que antes faziam parte da rotina. - Perder objetos ou colocá-los em lugares incomuns
Guardar objetos em locais inadequados e não conseguir refazer o caminho para encontrá-los. - Diminuição do julgamento e da capacidade de tomar decisões
Comportamentos ou decisões incomuns para aquela pessoa, inclusive em situações cotidianas. - Perda de iniciativa
Abandonar atividades, hobbies, encontros sociais ou tarefas que anteriormente despertavam interesse. - Mudanças de humor, comportamento ou personalidade
Aumento de irritabilidade, apatia, desconfiança, isolamento ou alterações que não eram características daquela pessoa. - Dificuldade crescente para lidar com atividades do cotidiano
Quando alterações cognitivas começam a comprometer a autonomia e a pessoa passa a precisar de ajuda para atividades que antes realizava sozinha.
Eduardo Trevizoli Justo é médico de família e comunidade e reside em Blumenau/SC. CRM/SC 35069/ RQE 28990
Atenção
Um ou mais desses sinais não significam, necessariamente, Alzheimer. Diversas condições podem provocar alterações de memória e comportamento, algumas delas tratáveis. A persistência ou progressão dos sintomas deve ser avaliada por um profissional de saúde.